CRÍTICA: “AOS DOMINGOS” E A OBSERVAÇÃO DO FIM

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O ator e dramaturgo Adriano Tunes. Foto: Nelson Pará

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – Reflexões sobre a finitude da vida são, via de regra, excelentes detonadores dramatúrgicos graças à sua capacidade de sensibilizar o espectador. Todos já nos deparamos com essa questão em algum momento, seja pela perda efetiva de alguém, seja pela percepção de que aqueles que amamos não estarão conosco pra sempre, seja pelo medo de nosso próprio fim.

Ao eleger a velhice como tema de seu primeiro texto, Adriano Tunes estuda a morte não como algo que chegará e porá fim em tudo, mas sim como um processo lento que ocorre ainda em vida.

Aos Domingos versa sobre um casal de idosos que, por não receber mais visitas dos filhos, convida desconhecidos, através de um anúncio no jornal, para um café da tarde. A este drama de abandono, soma-se o fato de a esposa estar com Alzheimer, confundindo frequentemente seus convidados com a família da qual sente falta.

Observamos, portanto, uma mulher que se desfaz diante de nossos próprios olhos, num distanciamento constante e irrevogável da realidade, e um marido que lida com o desinteresse dos filhos ao mesmo tempo em que vê sua companheira de vida perder-se num mar de confusão. A morte virá em breve, é claro, mas não sem antes levar todo o resto: a sanidade, as memórias, o companheirismo, e toda a história dos dois. De certa forma, pelo véu da doença, ele morrerá para ela, que será incapaz de reconhece-lo, do mesmo jeito que ela, encerrada em si mesma, morrerá para ele.

Em mãos menos sensíveis, a história cairia na espetacularização do sofrimento e no melodrama barato. Felizmente, a direção de Bernardo Berro e dramaturgia de Tunes, que também interpreta a senhora idosa, sabem ser graciosas e evitar a maioria dos clichês e armadilhas nas quais a encenação poderia cair. Ao apostar no minimalismo e ao acomodar os espectadores ao redor de uma mesa onde serve-se café e bolo, a equipe criativa nos coloca dentro do jogo cênico,  o que torna a narrativa espontânea e menos esquemática, além de propor uma experiência que brinca com a sinestesia – o cheiro do café e o gosto do bolo são fundamentais para evocar a atmosfera de casa de vó que o texto pede.

Essa imersão entra em choque com a escolha de escalar Tunes para o papel de idosa. Há certo estranhamento em ver um ator jovem interpretar uma senhora no fim de sua vida, por melhor que ele construa a personagem. Atencioso, o ator e dramaturgo cria um corpo que lida bem com questões de tônus, peso, velocidade e postura, além de ser cuidadoso com os detalhes, como a mão que sempre treme ou os pés que sempre se arrastam. Se o corpo impressiona, a voz parece requerer ainda alguma investigação: por vezes ela soa meio caricatural, numa montagem que não parece operar nessa chave. São desafios naturais para qualquer ator que se proponha a interpretar um papel de gênero e idade diferentes dos seus, de modo que Tunes não comete nenhum erro crasso em seu trabalho, mas quando sua voz atingir o mesmo nível de seu corpo, o que é uma atuação boa pode se tornar algo ainda melhor.

Generoso em cena, Emerson Grotti serve de escada para seu colega, ao mesmo tempo em que consegue injetar doçura e fragilidade no papel de marido. Ambos os atores são beneficiados pela direção de Berro, que se coloca em função do texto e mais organiza a movimentação do que estabelece marcas ou partituras. Nesse clima de organicidade, o espetáculo ganha muito.

Sutil e breve (com cerca de uma hora de duração), Aos Domingos se mostra inteligente ao não querer maior do que é, nem tentar esgarçar o texto que ganha força justamente por ser conciso e coerente com as regras que estabelece – somos, afinal, apenas visitantes na casa do casal, e tudo que nos cabe ver é um recorte da história dos dois.

Talvez a opção de mostrar depoimentos reais de pessoas falando sobre suas famílias com uma música triste ao fundo seja um traia um pouco a sutileza do resto do espetáculo, ao sublinhar a mensagem que já estava sendo transmitida e tentar forçar na plateia uma emoção que poderia ser despertada com um pouco mais de delicadeza. Mas parece tratar-se de uma opção consciente da equipe, com os prós e contras que qualquer escolha acarreta.

No mais, Aos Domingos parece uma obra honesta, o que já diz muito.

Aos Domingos
Texto: Adriano Tunes
Direção e preparação vocal: Bernardo Berro
Elenco: Adriano Tunes e Emerson Grotti
Figurinos e Cenário: Fabio Namatame
Trilha Sonora Original: Peter Mesquita e Edson Penha
Preparação Corporal: Gisele Nallini
Arte Gráfica e Ilustrações: Bruno Nitz
Coreografia: André Luiz Odin e Marco Azevedo
Assessoria de Imprensa: Unicórnio
Fotos e Videos: Felix Graça
Apoio: TAP e Cutucada Cultural

Serviço
Até 18 de abril. Terças, às 19h30 e 21h.
Ingressos: R$ 30,00 (meia) a R$ 60,00 (inteira)
Espaço Cutucada Cultural. Rua Matias Aires, 61, Casa 3 – Consolação

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