CRÍTICA: “BLANCHE” E A LÓGICA SUBJETIVA

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Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – Antunes Filho subverte Um Bonde Chamado Desejo ao encenar sua versão utilizando fonemol, língua inventada pelos atores. A proposta convida o espectador a criar sua própria dramaturgia e ordenar a história de Blanche, sua irmã Stella e o marido desta, Stanley. O espetáculo segue em cartaz no Sesc Consolação até 29 de abril.

Embora “estranhamento” seja atualmente uma palavra tão usada que se torna quase vulgar, barata, vazia, é impossível não utilizá-la ao se falar de Blanche, espetáculo de Antunes Filho que segue em cartaz no Sesc Consolação. Apropriando-se do texto mais emblemático de Tennessee Williams, Antunes cria um espetáculo limítrofe, que ao mesmo tempo é e não é Um Bonde Chamado Desejo; que afasta o espectador pelo uso do fonemol ao mesmo tempo em que o eleva ao posto de co-dramaturgo; cuja teatralidade surge justamente da negação de alguns dos elementos mais significativos da arte cênica, como luz e cenário. Superado todo esse estranhamento, o espetáculo revela-se um experimento teatral bastante instigante.

Ao tirar o espectador de uma posição passiva – afinal, cabe a ele a tarefa de completar as lacunas deixadas propositalmente pela direção – , Blanche demonstra uma qualidade rara nas encenações em cartaz: ela vê o espectador como um igual, e não como alguém a ser conduzido pacificamente ao longo do espetáculo. Se ele não se entregar com o dobro de desprendimento, e não investir toda sua atenção e criatividade no espetáculo, o evento teatral simplesmente não acontece. Do choque entre a encenação e a plateia surgem as fagulhas que dão vida à peça.

A entrega e atenção exigidas da plateia também são cobradas do bom elenco que, tendo o português substituído pelo fonemol, língua inventada e sem equivalência com qualquer outra, é privado de um dos canais de comunicação mais essenciais do teatro, e deve encontrar outras vias para se conectar com o espectador. Tudo se dá, portanto, por uma via subjetiva, onde a bagagem emocional daquele que assiste tem tanto valor quanto pronomes, advérbios e tempos verbais. A encenação e as boas atuações informam o contexto da cena, mas o sentido se dá unicamente pela capacidade do espectador em traduzir, entender e organizar o que se passa no palco.

Do mesmo jeito, os atores se entregam à uma atuação mais crua, pautada pela racionalidade da subjetividade e do emocional, emancipada de qualquer lógica da palavra. Tudo se dá numa comunicação pré-verbal, primitiva, da transmissão de uma ideia por vias periféricas. Quando a palavra – tão importante na obra de Williams – é pervertida, resta aos atores expor o monólogo interno de seus personagens, vazando seus afetos, medos, anseios e necessidades pelos poros, pelos gestos, pelo olhar.

A cena em que Blanche chora para Mitch é um exemplo perfeito disso: percebe-se toda a lógica da personagem, toda a narrativa que começa leve, num flerte, e evolui para um choro desesperado, confessional. Não se sabe ao certo porque ela chora, e que papel ela tomou na história narrada, mas a coerência com que Marcos de Andrade executa a cena é tão certeira que o idioma em que ela se passa é quase desimportante.

A escolha de um ator para um papel feminino também é mais uma dessas escolhas que servem para desestabilizar o espectador. A Blanche grotesca que Antunes propõe não tem tanto a ver com a investigação de gênero presente, por exemplo, no Romeu e Julieta do Núcleo Experimental, onde homens e mulheres alternavam-se nos papéis do casal de Verona, para pesquisar como o gênero interfere nos afetos. Aqui, esse recurso parece mais um elemento para desequilibrar a plateia, que deve encontrar sentido nesta figura tão estranha.

Dando o nome ao espetáculo, esta versão de Blanche DuBois é a síntese da peça: um personagem que não faz sentido, que desafia a compreensão, que parece frágil e que extrai forças justamente da debilidade. É algo que ao mesmo tempo convida e afasta, que inspira compaixão enquanto causa repulsa.

Se esta escolha realça a dinâmica sonho/pesadelo buscada, também dilui o desejo tão presente no texto-fonte de Williams. Não há mais a tensão sexual irrefreável entre Blanche e seu cunhado, Stanley. Nesta abordagem grotesca, o que resta é uma violência injustificada, primitiva, que pode ou não ter a ver com tesão mal elaborado, com o pós-guerra (imagem recorrente nesta encenação), com a incomunicabilidade ou com qualquer outro sentido que o espectador conseguir injetar.

Em certa medida, Blanche é como um teste de Rorschach, um espelho para que o espectador se observe. A prática pode afastar boa parte da plateia, desinteressada no exercício de olhar para dentro. Para aqueles que consigam comprar a ideia, por outro lado, a viagem pode ser a um só tempo confusa e reveladora.

Blanche
Baseado no texto de Tennessee Williams
Direção geral, preparação de corpo e de voz – Antunes Filho
Diretor de palco – Fagundes Emanuel
Assistente de direção – Francieli Fischer
Figurinos – Telumi Hellen
Assistente – Tainara Dutra
Adereços – Clau Carmo
Costureira – Noeme Costa
Ambientação – José de Anchieta (O realismo de uma Sala de Ensaio fingindo ser outra Sala de Ensaio)
Assistente – Emerson Mostacco
Cenotécnico – Fernando Brettas
Trilha sonora – Raul Teixeira
Sonoplastia – Lenon Mondini
Iluminadores – Edson FM Elton Ramos
Produção executiva – Emerson Danesi
Elenco – Stella Prata, Vânia Bowê, Felipe Hofstatter, Alexandre Ferreira, Fagundes Emanuel, Andressa Cabral, Marcos de Andrade, Bruno Di Trento, Antonio Carlos de Almeida Campos, Guta Magnani

SERVIÇO
De 10 de fevereiro a 29 de abril de 2017. Sextas, às 20h e sábados às 17h.
Ingressos: R$ 30,00. R$ 15,00 (meia-entrada: estudante, servidor de escola pública, +60 anos, aposentado e pessoa com deficiência). R$ 9,00 (credencial plena: trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo matriculado no Sesc e dependentes).
Sesc Consolação. Rua Dr Vila Nova, 245. Espaço CPT, 7º andar.

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