CRÍTICA: DIVÃ DE PRIVILEGIADOS NÃO FUNCIONA BEM EM “BRANCO”

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"Branco" em cartaz no Centro Cultural de São Paulo. Foto: André Cherri

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com.br)  

SÃO PAULO – Branco: O Cheiro do Lírio e do Formol estreou em março na Mostra Internacional de teatro (MITsp). O Festival trazia como um dos motes discutir o racismo por meio do teatro. Foi nesse contexto, que Alexandre Dal Farra ganhou um edital para o projeto. Com direção dele e de Janaina Leite (que também atua ao lado de André Capuano e Clayton Mariano), tentam evidenciar o privilégio do branco em uma sociedade com um racismo estrutural. Pois é, tentam.

O espetáculo, após a MITsp, segue em cartaz no Centro Cultural de São Paulo. Mas, não funciona em seus objetivos. A provocação de um espectador após uma sessão explicita a questão: “uma peça feita pela burguesia para criticar a burguesia, mas quando se assiste tem a impressão que a única classe ofendida é a dos proletariados”.

É preciso pensar em umas questões importantes, visto que ao se abrir para o debate com a plateia, os diretores e atores se mostram abertos na tentativa de criar um teatro vivo com o espectador. Será que o branco precisa evidenciar o seu lugar de privilégios? Uma forma de fazê-lo não seria dar espaço aos negros – que raramente tem lugar em cena ou mesmo como público?

O texto de Dal Farra trata de uma família branca e de classe média que lida com uma realidade externa. A intenção é ridicularizar situações e estereótipos como a pizza de domingo e a (in) formação pautada pela televisão. Mas, a força maior da mensagem é uma metalinguagem do próprio projeto de Branco.

Branco é ora ironia, ora divã de um branco querendo entender seu lugar de privilégio. É uma coisa nem outra, portanto. É acima de tudo confuso e sem sentido em muitos momentos. Além de tratar de uma temática por um lado não só questionável, como também limitador e possível.

Entenda-se: não escrevo que em Branco deveríamos ter negros em cena. Isso não cabe ali. Não na proposta. Questiono sim o real valor de tal viés no palco. Um teatro pós-dramático em fragmentos que busca ironias. Até que ponto funciona? A linha entre querer retratar os privilégios de uma classe dominante e opressora e reforçar os preconceitos e estereótipos que predominam na sociedade é tênue.

O espetáculo esteticamente também tem defeitos quando se fragmenta entre o processo e a família de classe média. Isso para além da temática. Outro ponto é que o próprio Dal Farra e Janaína assumem que das 7 apresentações – até então – nenhuma foi igual a outra. Textos, passagens e mudanças são feitas a cada sessão.  É um espetáculo fechado ou um processo em aberto? O teatro tem a magia de ser diferente sempre. Mas, mexer – com perigo ou intenção de assimilar críticas ou melhorias – é como a parte dessa mea-culpa do lugar do branco e do que a peça tenta retratar: um território espinhoso e pelas vias dos dominantes resolvidos a sentar no divã para se curar de dívidas sociais e estruturais.

Branco é um divã para privilegiados que não funciona em muitos aspectos e acaba por dar espaço para quem já tem voz.  E será mesmo que interessa essa análise óbvia para o oprimido e convenientemente velada para o privilegiado?

É importante que se diga: o Centro Cultural de São Paulo também abriga outra peça da MITsp sobre a mesma temática. A missão em fragmentos – 12 cenas de descolonização em legítima defesa traz apenas atores negros e está durante a semana, terças e quartas-feiras, às 20h.

Ficha técnica:

BRANCO: O CHEIRO DO LÍRIO E DO FORMOL

Texto: Alexandre Dal Farra. Direção: Alexandre Dal Farra e Janaina Leite.Atores: André Capuano, Clayton Mariano, Janaina Leite. Concepção cênica, cenário e figurinos: Alexandre Dal Farra, André Capuano, Clayton Mariano e Janaina Leite. Direção de arte: Melina Schleder. Luz: Daniel Gonzáles. Trilha sonora: Miguel Caldas. Consultoria em vídeo e edição: Flávio Barollo.Operação de som: Tomé de Souza. Operação de luz: Michel FogaçaProdução: Alexandre Dal Farra, Gabriela Elias e Janaina Leite. Duração: 75 minutos.Classificação etária: 16 anos.

Serviço:

BRANCO: O CHEIRO DO LÍRIO E DO FORMOL – De 7 de abril a 21 de maio – Sextas e sábados 21h e domingos 20h. Ingressos: Pague quanto puder – De R$1 a R$5 (somente na bilheteria a partir de 2 horas antes da peça) e de R$10 a R$30 pelo Ingresso Rápido. Atenção: Dias 28, 29 e 30 de abril não haverá espetáculo, excepcionalmente.

CENTRO CULTURAL SÃO PAULO – Sala Jardel Filho. Telefone – 11 3397-4002.

  1. Vergueiro, 1000 – Paraíso – São Paulo. Capacidade: 321 lugares. Acessibilidade.

 

 

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