CRÍTICA: “DO ENSAIO PARA O BAILE”

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Do Ensaio Para o Baile. Crédito: Alexandre Bassani
Do Ensaio Para o Baile. Crédito: Alexandre Bassani

SÃO PAULO – Espetáculo do Pequeno Teatro de Torneado termina sua temporada na FUNARTE neste final de semana. Na peça, o coletivo narra as histórias de um grupo de estudantes prestes a se formar no colegial, em 1997, a fim de discutir a falência do sistema de ensino.

Na ativa desde 2005, o Pequeno Teatro de Torneado tem se consolidado como uma trupe, capitaneada pelo diretor e dramaturgo William Costa Lima, unida para investigar técnicas, linguagens, temas ou estéticas. Se a alta rotatividade do coletivo traz alguns contras, como a inconsistência do elenco – afinal, entrando e saindo do grupo, os atores e atrizes se mantêm em diferentes níveis de amadurecimento individual ou de afinamento com o resto do grupo, coisas que vêm com o tempo e o trabalho em conjunto – traz também um frescor e uma energia específica a cada montagem.

Em Do Ensaio Para o Baile, primeira parte da trilogia Colapsos Institucionais, o Torneado se debruça sobre a falência do sistema educacional do país, estabelecendo sua trama em 1997 a fim de falar dos dias de hoje. Através deste distanciamento histórico, o coletivo pretende mapear o caminho de desencontros que resultou no momento atual: o desgaste da relação professor-aluno, o não-pertencimento à escola, as relações de poder (e violência) entre os alunos, as relações entre o microcosmo da escola e o mundo exterior – e como racismo, homofobia, classismo e sexismo infiltram o ambiente escolar – entre outras questões.

Se parece um tema muito amplo e complexo pra ser abordado em apenas 60 minutos, o texto e a direção, ambos assinados por Costa Lima, com contribuição do elenco, sabem manter seu recorte preciso, traçando mais um panorama geral do que verticalizando em temas específicos e que mereceriam um tratamento muito mais aprofundado. Ao colocar os personagens da peça às vésperas da formatura, Costa Lima os coloca no limiar, ao mesmo tempo dentro e fora dos muros escolares, a fim de refletir se e como a escola os preparou para o “mundo real”, e como eles se tornariam os adultos de hoje – e, da mesma forma, como os estudantes de 2017 se tornarão os adultos de amanhã.

Criando um espetáculo com diversos planos – a atuação caricatural, a voz gravada que os atores precisam dublar (que tanto ecoa os filmes dublados da televisão aberta do período quanto põe em dúvida as falas dos personagens, aumentando o caráter questionador da dramaturgia), as músicas de fundo, os comentários das televisões de tubo que compõem o cenário, o texto etc – que ora convergem e ora divergem, o Torneado tem a seu favor o fato de ter produzido uma peça que se diferencia da média por sua estética. E observando a produção teatral atual, que soa bastante similar – e não entraremos neste texto na questão de isso ser bom ou ruim – isso é uma conquista bastante interessante.

Resta avaliar, contudo, se em algumas horas a estética não se impõe ao discurso – a sobreposição de atuação e texto gravado às vezes tira a atenção do bom texto, que é sempre um dos pontos altos dos espetáculos da trupe. Contudo, como primeira parte de uma trilogia maior que ainda se debruçará sobre instituições hospitalares (em Incandescente, com previsão de estreia para 2018) e presidiárias (Acassiopeia, 2019), Do Ensaio Para o Baile é um bom ponto de partida, tanto pensando em temática quanto em formato, além de ser mais um passo na interessante trajetória do grupo.

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

DO ENSAIO PARA O BAILE
Dramaturgia, Encenação e Músicas – William Costa Lima.
Artistas/Criadores – Aguida Aguiar, Angélica Souza, Alexandre Manete, Emerson Macena, Gabriela Câmara, Higor Moura, Isabela Marques, Jefferson Ramalho, Jefferson Silva, Luiza Grillo, Maira Sera, Marc Strasser, Mariana Acioli, Marina Yohara, Mayara Sobral, Ramón Soares, Suzi Jardim, Thaís Moura, Thiago Andrade e Victor Luiz.
Direção Musical – Pequeno Teatro de Torneado.
Arranjos – Danilo Araújo.
Preparação Vocal – Angélica Souza.
Desconstrução Corporal – Erika Moura.
Figurinos – Mariana Acioli.
Iluminação e Cenário – William Costa Lima e Pequeno Teatro de Torneado.
Voz do professor em áudio – Edgar Castro.
Designer Gráfica – Patrícia Cividanes.
Edição Audiovisual e Fotografias – Alexandre Bassani.
Pesquisa Teórica e Redação de Conteúdo – Isabela Marques e William Costa Lima.
Pesquisa Histórica – Mayara Sobral.
Pesquisa Histórica Musical – Suzi Jardim.
Operador de Iluminação – Ricardo Garcia.
Operadora de Sonoplastia – Letícia Carmona.
Direção de Produção – Bruna Rosa.
Apoio – FUNARTE-SP.
Realização – Sítio Cultural Alsácia.

Serviço
Até 30 de julho.
Quinta a sábado, 21h e domingo, 20h
Grátis, com retirada uma hora antes do início do espetáculo.
Complexo Cultural FUNARTE São Paulo – Sala Carlos Miranda. Alameda Nothmann, 1052, Campos Elísios.

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