CRÍTICA: “A DOMADORA” E A PROXIMIDADE DO FIM

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SÃO PAULO – Em cartaz no Sesc Pinheiros, monólogo de Paula Picarelli usa a relação entre uma domadora de animais e sua elefanta, durante um número de circo, para falar da velhice e da morte. O espetáculo segue até 27 de maio, de quinta a sábado, às 20h30.

Felix Nadar certa vez disse que “o retrato é o espe lho que detém o tempo”. É por isso, portanto, que o retrato fez e faz tanto sucesso até hoje: através dele uma parte de nós é imortalizada e nos tornamos imunes à ação corrosiva do tempo.

Faz sentido que, numa sociedade que valoriza o vigor e a juventude, envelhecer seja um processo tão conflituoso: embora signifique maturidade e sabedoria, também significa a proximidade do fim. Significa, ao mesmo tempo, a alternativa à morte, e o lembrete dela. No terreno das coisas práticas, o envelhecimento também potencializa a insegurança natural sobre o futuro: dependeremos de alguém na velhice? Conseguiremos manter uma fonte de renda? Estaremos sozinhos? Teremos tranquilidade?

O envelhecimento e a proximidade da morte – seja pela velhice, seja pelo risco inerente à profissão – é o mote de A Domadora, monólogo idealizado e escrito por Paula Picarelli e dirigido por Otávio Dantas.

No texto, Picarelli interpreta uma domadora de elefantes nos momentos cruciais de um número que ela tem feito há anos: a elefanta responde aos comandos da tratadora numa coreografia graciosa e arriscada, que vai de passos simples e piadas físicas até o final onde o animal pousa sua pata no nariz da protagonista. Nesse curto espaço de tempo onde tudo pode dar certo ou terrivelmente errado, ela avalia sua vida e como as coisas chegaram ao ponto em que chegaram – e se poderão seguir adiante.

Às voltas dos 40 anos, tudo lhe parece em risco numa forma de arte que se baseia no encanto e no deslumbre: o corpo não responde mais do mesmo jeito, a pele não é mais a de antes, estratégias como diminuir a luz ou ficar um pouco mais distante da plateia durante um ato começam a ser cogitadas. Se envelhecer já é um processo doloroso, torna-se ainda pior para uma mulher que precisa maravilhar uma plateia diariamente para ganhar a vida.

Confortável no papel, Picarelli se expõe com bastante bravura: fala abertamente sobre as dores de envelhecer e deixa claros os paralelos entre si e a personagem que começa a encarar a decadência. Usando Simone du Beauvoir e Barbara G. Walker como referência, a equipe de idealizadores garante um valioso estofo sociopolítico à peça, criticando a indústria do espetáculo, a ditadura da beleza e da juventude, o machismo e as relações de poder no ambiente de trabalho, além de tratar o amor entre duas mulheres com naturalidade e delicadeza, sem exotismo ou fetichismo – do jeito que relacionamentos homoafetivos devem ser tratados.

A cenografia de Anna Turra amplia a noção de drama psicológico proposta pelo texto, brincando com superfícies espelhadas que refletem, distorcem e aprisionam, dependendo das necessidades da história. Combinados com a serragem no chão, os espelhos criam uma atmosfera surreal, meio de freakshow, que funciona tão bem que torna supérfluos os outros elementos de cena, como as banquetas – não porque elas sejam redundantes ou desnecessárias, mas simplesmente porque o efeito obtido já era tão certeiro que o espetáculo poderia facilmente ocorrer apoiado na austeridade surreal proposta pelos dois.

Os figurinos de Chris Aizner ajudam na marcação de tempo de uma dramaturgia que não segue ordem cronológica linear, mesclando presente e passado de modo febril à medida que a angústia da protagonista se intensifica. Além de servirem como totens para situar a plateia nos momentos da vida da narradora (e com quais personagens ela interage), as roupas expõem o corpo de Picarelli de um modo cru, sem pensar em truques que valorizem a silhueta ou escondam particularidades que poderiam ser lidas como “imperfeições” pelos padrões de beleza vigentes. É uma escolha corajosa da equipe criativa, e coerente com as reflexões às quais o espetáculo se propõe: nosso corpo é moldado pelo tempo e isso é tanto a tragédia quanto a glória de estar vivo.

Ao contrário de nossa figura num retrato, estamos inescapavelmente num processo de mudança constante, carregando do presente em diante as marcas que a vida nos impõe. O fim e a deterioração virão, independente das glórias do passado, ou de quão jovens e fortes já fomos. É uma lembrança aterradora, é verdade, mas é um fato inalterável; e fazer as pazes com ele o quanto antes talvez garanta alguma harmonia com o ocaso que se aproxima.

A Domadora
Concepção, dramaturgia e interpretação: Paula Picarelli
Direção, concepção, fotografia e vídeo: Otávio Dantas
Colaboração artística: Clayton Mariano
Participação: Mary Lamberti
Preparação corporal (Body Mind Movement): Rodrigo Palma
Luz: Fabricio Licursi
Música: Miguel Caldas
Figurinos e objetos: Chris Aizner
Cenografia e vídeo: Anna Turra
Cenotécnico: Fernando Brettas
Design gráfico: Juh Ledi
Produção: Gabi Gonçalves – Núcleo Corpo Rastreado

Serviço
De 27 de abril a 27 de maio de 2017. Quinta a sábado, 20h30
Ingressos: R$ 25,00 (inteira). R$ 12,50 (meia: estudante, servidor de escola pública, + 60 anos, aposentados e pessoas com deficiência). R$ 7,50 (credencial plena: trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo matriculado no Sesc e dependentes).
Auditório do Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195.

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

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