CRÍTICA: “ENQUANTO ELA DORMIA”

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Enquanto Ela Dormia. Foto de Mayra Azzi.
Enquanto Ela Dormia. Foto de Mayra Azzi.

SÃO PAULO – Monólogo de Lucienne Guedes, concebido e dirigido por Eliana Monteiro e com dramaturgia de Carol Pitzer aborda a violência contra a mulher e as relações de poder que trabalham pela manutenção desta questão. O espetáculo segue em cartaz no Mezanino do Centro Cultural FIESP de quarta a domingo até 22 de outubro.

Nossas memórias são compostas um tanto por lembranças e outro tanto por imaginação. Isto se dá porque no processo de transformação de consciência para memória de curto prazo, e daí para a de longo, muita coisa se perde e as lacunas precisam ser preenchidas pela criatividade – o que pensamos que aconteceu, o que fantasiamos que aconteceu, o que nos contaram que aconteceu etc.

Da mesma maneira, podemos suprimir lembranças, parcial ou totalmente.  Esquecer é também um processo de higiene ou de defesa: esquecemos fatos desimportantes como um número de telefone antigo ou um endereço que decoramos, ou nem nos damos ao trabalho de registrar os rostos das pessoas pelas quais passamos na rua, assim como podemos suprimir memórias doloridas e danosas.

Se nossa identidade é composta em grande parte por nossa memória, e esta não é tão confiável enquanto documento, então, em certa medida, nossa identidade é algo definido por meias-verdades, ficções e amnésias seletivas.

Enquanto Ela Dormia, monólogo que estreou em 2 de agosto no Centro Cultural FIESP parte das tensões entre memória, biografia e identidade para falar de violência e suas cicatrizes, das necessidades individuais versus as imposições coletivas, do machismo estrutural, de família e de pertencimento (a um clã, a uma sociedade e sobretudo a si mesma). Com ares de thriller psicológico, a dramaturgia fragmentada de Carol Pitzer narra a história de uma mulher que, ao presenciar um episódio de violência sexual num ônibus, acessa memórias suprimidas de um abuso sofrido.

Se a dramaturgia propõe um jogo de esclarecimento e confusão misturando presente e passado, pensamento e fala, Marisa Bentivegna potencializa essa dinâmica ao criar uma cenografia que é uma sobreposição de vários ambientes (um pouco de casa, um pouco de cela…) que é quase a fiscalização da mente confusa da protagonista.

Transitando bem entre os diversos estados requisitados pelo texto, Lucienne Guedes constrói uma personagem coerente dentro de sua confusão. Intérprete segura, é nítido que Guedes obterá resultados ainda melhores ao longo da temporada, à medida em que todo o espetáculo for mais azeitado.

Ainda que bastante na palavra, o espetáculo consegue oferecer momentos de apelo visual que contribuem para a experiência da plateia, que tem a oportunidade de dialogar com a peça sem ser apenas pelo que é dito. São exemplos disso a bela solução para a cena da carta, os desenhos no corpo da atriz, a hora em que se quebra o vidro ou o uso da água, que evoca Mnemosine e o rio Lete, representações da memória e do esquecimento na mitologia grega. Há, claro, passagens menos inspiradas (a atriz recolher estilhaços de vidro enquanto a personagem recolhe estilhaços de memória pode ser meio redundante), mas estão em menor número e não prejudicam o todo.

Ecoando Antígona com felicidade ao partir do individual para falar de leis e restrições coletivas, e conseguindo abordar um tema tão delicado de modo responsável, Enquanto Ela Dormia mantém aceso com dignidade o debate sobre a violência contra a mulher, tão presente nos palcos paulistanos este ano.

Fernando Pivotto para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

ENQUANTO ELA DORMIA
Concepção e Direção:
 Eliana Monteiro
Texto: Carol Pitzer
Atriz: Lucienne Guedes
Dramaturgismo: Antonio Duran
Desenho de Luz: Guilherme Bonfanti
Cenografia: Marisa Bentivegna
Figurino: Marichilene Artisevskis
Trilha sonora: Erico Theobaldo
Vídeo: Bruna Lessa
Voz off: Antônio Duran e Cibele Bissoli
Assistente de Direção e Direção de Cena: Isabella Neves
Assistente de Dramaturgismo: Bruna Menezes
Assistente de Iluminação: Aldrey Hibbeln e Danielle Meireles
Assistente de Cenografia: Amanda Vieira
Cenotécnicos: Cesar Rezende Santana (Basquiat), Fernando Lemos Silva, Ricardo Oliveira e Zito Lemos
Costureira: Judite Gerônimo de Lima
Operação de Luz: Aldrey Hibbeln
Operação de Som: Tomé de Souza
Video Mapping: Michelle Bezerra
Produção Executiva: Andrea Pedro
Assistente de Produção: Leonardo Monteiro
Assessoria de Imprensa: Márcia Marques – Canal Aberto
Designer Gráfico: Luciana Facchini
Fotos: Mayra Azzi
Supervisão Geral: Eliana Monteiro
Realização: SESI-SP

Serviço
Temporada: 
2 de agosto a 22 de outubro de 2017
Horários: quarta a sábado, às 20h30, e domingo, às 19h30
Local: Mezanino do Centro Cultural Fiesp (Avenida Paulista, 1313 – em frente à estação Trianon-Masp do Metrô)
Capacidade: 50 lugares
Duração: 70 min
Recomendação: 16 anos
GRÁTIS.  Reservas antecipadas de ingressos pelo site www.centroculturalfiesp.com.br.

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