CRÍTICA: ESPETÁCULO SOBRE TRAGÉDIA DE MARIANA TRAZ REALIDADE AO TEATRO SEM MEDO DE DEBATER TEMAS

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SÃO PAULO – Após 2 anos de rompimento da barragem em Mariana, dois anos de perguntas, de histórias. “Isso aí foi o quê, uma tragédia, um acidente, um desastre ou crime?”, diz a personagem-chave. Com esse ar de suspense sem resposta, em meio a destroços, a Ordinária Companhia traz o tema para o teatro, evocando a sociedade a se olhar, se questionar do que é ficção, realidade em um lugar que perde suas referências na lama. Trama que vale mais do que o enredo de um filme, só que é real. A troca entre teatro e cinema está ali para reforçar o jogo. O espetáculo poderia ser uma verborragia sobre uma cena que ganhou a TV, uma boa pesquisa hermética. Ainda bem não o é.

Traz Mariana, traz o nosso teatro de cada dia, faz pensar sobre o que é importante – e a resposta não é a mesma para todos, nos leva a lama como se fossemos nós. Quem sabe assim não se vê mais o outro? Assim é Os Atingidos ou Toda Coisa que Vive é um Relâmpago, em cartaz no Teatro de Contêiner, até seis de dezembro.

Com dramaturgia e direção de José Fernando Peixoto de Azevedo, os atores Áurea Maranhão, Conrado Caputo, Juliana Belmonte, Paulo Balistrieri e Rafael Lozano criam uma trama paralela à realidade. Um trabalho teatral interessante de se ver, envolto em lamas – diferentes para cada personagem em um suspense cinematográfico, com uma trilha, óbvio que acompanha. Ora as cenas surreais te chama a realidade. Um filme ao vivo – talvez seja assim a vida. De um lado pessoas se arrumam para imprensa, pensam refletem, no outro panorama a tragédia está ali, fazendo impossível a construção social, ambiental. Qualquer que seja.

Os Atingidos ou Toda Coisa que Vive é um Relâmpago fala de Mariana quando a barragem, por conta da exploração de minérios, rompeu e atingiu os rios de Minas e Espírito Santo até chegar aos mar. A lama foi implacável com Mariana. A sensibilidade do grupo que buscou relatos reais e construiu uma dramaturgia para trabalhar questões sociais, ambientais e de tantas camadas que envolvem a tragédia e questões universais, antigas e urgentes a nossa atualidade. Até quando vamos suportar ser jogados na lama sem respostas mínimas.

A montagem da Ordinária Companhia é a segunda sobre o tema que habita o eclético teatro paulistano, a primeira, Hotel Mariana, que teve Herbet Bianch na direção era completamente diferente. O teatro quando atravessa a realidade com responsabilidade e boa dramaturgia, em que nem tudo precisa ser real, ainda que o seja, alcança nosso cotidiano de forma certeira. Assim é Os Atingidos ou Toda Coisa que Vive é um Relâmpago.

Serviço
Teatro Container da Cia. Mungunzá – Rua dos Gusmões, 43 – Santa Efigênia – São Paulo. Telefone: (11) 99587-4150. Temporada: De 7 de novembro a 6 de dezembro. Terças e Quartas, às 20h. Preço: R$ 20 (Inteira) e R$ 10 (Meia). Capacidade: 99 lugares. Classificação: 14 anos. Duração: 90 minutos. Ingressos pelo site Sympla ou bilheteria aberta 2 horas antes do evento.

Foto/Crédito Caio Oviedo


Kyra Piscitelli, do aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com.br) 

 

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