CRÍTICA: GRUPO CARMIM REDESCOBRE O NORDESTE NO SESC BELENZINHO

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SÃO PAULO – É difícil encarar o muito de uma história não muito bem contada e até não sabida desse mundão que é o nosso país. Mais difícil ainda é adentrar na aridez do Nordeste, fazendo desmoronar mitos, de Padre Cícero a Lampião, e principalmente, discutir geopolítica numa peça teatral de um pouco mais de uma hora de duração. Esse feito acontece em A Invenção do Nordeste e é um mérito termos de volta à cena paulistana o Grupo Carmin, de lá do Rio Grande do Norte. Graças ao SESC SP, a temporada vai até 26 na Unidade Belenzinho.

 

A direção de Quitéria Kelly consegue literalmente tirar ‘leite de pedra’ de uma aridez que não é a do solo nordestino, mas, sim, do pouco que se tem por ele e se sabe dele – pelo resto do país e até mesmo pelos próprios nordestinos, incluindo prosódia, jeitos e maneirismos, e uma malemolência contagiante dos três atores em cena, Henrique Fontes, Mateus Cardoso e Robson Medeiros.

Além de fatos corriqueiros fazendo contrastar gírias de lá com os outros estados, associações analógicas de uma política que já vinha falha e maniqueísta imposta por coronelismo X cangaço, desaguando em solos que se veem detentores de monopolismo artístico, como Rio e São Paulo, a montagem é de um atrevimento delicioso e impecável, muito palatável e divertidíssima, que chacoalha por igual um teatro de certa forma preguiçoso, amansado por leis e apoios financeiros.

 

A Invenção do Nordeste é resultado de pesquisa do livro homônimo de Durval Muniz de Albuquerque Jr (Ed Cortez – já na quinta edição), e faz jus às indagações do autor a uma gama de estereótipos tipificados por simplórios mapeamentos geográficos e históricos. Ultrapassar essas linhas e tratados, assimilando o que de verdade boa há em ser original é o trunfo dela. Sim, porque a originalidade te faz observar, entender e assimilar – e apreender o ideal atingido quando nos deparamos com o comum que somos.

Por meio de um simples teste de atores, os dois em cheque caem em si e se deparam no decorrer de sete semanas na produtora, em meio a exercícios de voz e corpo, numa espécie de desglobalização nacional, até separatista de certo modo, onde um estado corre o risco de ter sido inventado e o pior, passou a viver desse fake-historiográfico-folclórico. Onde nos deixamos alimentar sem querermos muito saber a origem da comida. Ou seja, sem embrenhar no nosso passado que nem é tão distante, cujo resultado é uma memória nacional pastosa e desidentificada com o real dos povos brasileiros. No caso, o nordestino. Se o desenrolar das cenas nos faz perceber o encaminhamento pruma certa dose de melancolia por conta de um sistema hipócrita e cruel já sabidos – mas, que permitimos que nos enfiem goela abaixo (e na área artística isso é ainda mais latente), o humor inteligente e perspicaz inserido na dramaturgia e bem aproveitado pela direção em minúcias interpretativas com uma variação de soluções pra lá de inovadoras, é apresentado com sutileza, delicadeza, técnica e muito talento pelo elenco.

A Invenção do Nordeste é uma espécie de xarope fortificante que tem o efeito não só de fortalecer, mas, principalmente de clarificar e expandir a consciência do brasileiro de forma muito dinâmica e lúdica, o quanto é importante sabermos do outro, respeitando-o em todas as suas idiossincrasias. É o teatro nos dando a oportunidade de uma convivência mais salutar a partir do entendimento do seu lugar, não no mundo – mas, no seu país.

FICHA TÉCNICA

 A Invenção do Nordeste | Grupo Carmin, 2017

Espetáculo inspirado na obra homônima do Prof. Dr. Durval Muniz de Albuquerque Jr.

Elenco | Henrique Fontes, Mateus Cardoso e Robson Medeiros

Direção e figurino | Quitéria Kelly

Pedro Fiuza | Assistência de direção, dramaturgia audiovisual e desenho de luz

Consultoria histórica e de roteiro | Durval Muniz de Albuquerque Jr.

Direção de arte e cenografia | Mathieu Duvignaud

Dramaturgia | Henrique Fontes e Pablo Capistrano

Preparação corporal | Ana Claudia Albano Viana

Preparação vocal | Gilmar Bedaque

Produção executiva | Mariana Hardi

Trilha original | Gabriel Souto / Toni Gregório

Design gráfico | Teo Viana

Xilogravura | Erick Lima

Costureira | Kátia Dantas

Cenotécnico | Irapuã Junior

Edição de vídeo | Juliano Barreto

Locução | Daniele Avila Small

Assistência técnica | Anderson Galdino

 

SERVIÇO

A INVENÇÃO DO NORDESTE

De 02 a 26 de novembro de 2017.

Quinta a sábado, às 21h30, e domingos e feriado (02/11), às 18h30.

Sesc Belenzinho – Sala de Espetáculos I

  1. Padre Adelino, 1000 – Belenzinho – São Paulo/SP

Tel. (11) 2076-9700

Capacidade: 120 lugares / Recomendação: 12 anos / Duração: 60 min

Ingressos: – R$ 20,00 (inteira); R$ 10,00 (aposentado, pessoa com mais de 60 anos, pessoa com deficiência, estudante e servidor da escola pública com comprovante); R$ 6,00 (trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo credenciado no Sesc e dependentes).

Darson Ribeiro, para o Aplauso Brasil

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