CRÍTICA: “ HAMLET-EX- MÁQUINA”- ARTE, UTOPIA E SÍNTESE

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Mayumi Ilari*, especial para o Aplauso Brasil

– Woman, thy name is frailty.

– No. Democracy, thy name is frailty.

 

SÃO PAULO – Hamlet-Máquina (Die Hamletmaschine) foi escrita pelo dramaturgo Heiner Müller (1929-1995) em 1977, sendo montada dois anos mais tarde, em Paris. A peça, que condensa em cerca de nove páginas uma sucessão de monólogos e cenas não claramente articulados entre si, foi inspirada na tragédia seiscentista inglesa de cerca de duzentas páginas de William Shakespeare, evocando formalmente o contexto caótico e algo esquizofrênico da Guerra Fria, notadamente na RDA (República Democrática Alemã) e no mundo fragmentado do contexto do último quartel do século XX. O espetáculo Hamlet-ex-Máquina, em cartaz na Oficina Cultural Oswald de Andrade até amanhã (sábado), recria a cena mülleriana em nosso Brasil do século XXI, sem qualquer desabono ao peso histórico dos quarenta anos desde sua existência, com atualidade assustadora.

Falada em quatro línguas (português, inglês, alemão e espanhol), sob a direção de Érika Bodstein, que compartilha com o Coletivo 42 os ensinamentos e estudos apreendidos junto ao notável Théâtre du Soleil,’ de Ariane Mnouchkine, a montagem é uma oportunidade ímpar de se assistir à junção do teatro por vezes hermético e difícil de Müller com os preceitos de um teatro claramente crítico sobre o mundo que nos cerca, de grandiosa força estética, e que se acredita e se quer “para o público ”, para o Outro, para o coletivo. A crítica impiedosa de Müller a uma sociedade dividida e de identidade em crise soma-se com maestria à profissão de esperança do coletivo francês criado nos anos sessenta, do século passado, processada agora pelo Coletivo 42.

Pautada por elementos fortemente antitéticos, Hamlet-ex-Máquina encena a versão compacta do príncipe da Dinamarca de Müller acrescentando-lhe excertos do texto elisabetano original, compondo com as “personagens” que se delineiam em Die Hamletmaschine (Hamlet, Ofélia, o ator que faz Hamlet) um forte coro formado por outros personagens centrais do Hamlet shakespeariano.

Na constante associação/ desassociação entre indivíduos e coletivo, desenrola-se a trama de nossos dias. Objetos de cena e figurinos alternam leveza e evanescência com o peso ofuscante dos grilhões representados num cenário de escuridão e grades: personagens a um só tempo “antigas” e fortemente “contemporâneas” atuam numa gaiola que extrapola as dimensões do palco. Figurinos rendilhados e plenos de sutilezas adornam personagens obscuras trajando maquiagens histriônicas, enquanto frases etéreas combinam-se a falas repugnantes ou sórdidas.

Nesse universo, mesmo o governante-judas-boneco-objeto-morto, quando destruído estilhaça-se em uma chuva de neve cuja leveza corporifica a esperança, que permanece aos pés da cena até o fim do espetáculo.

Como uma espécie de duplo negativo do protagonista shakespeariano (possivelmente mais) perdido, perante um Hamlet mais embrutecido e sarcástico, Ofélia, que era o elo mais frágil da tragédia elisabetana, abandona a fragilidade e delicadeza originais em prol da masculinidade da máquina na qual, segundo o protagonista, “o (meu) drama não tem lugar”. É ela quem, tornada Electra em Heiner Müller, a partir de certo momento acolhe as rédeas na trama de insultos e violência, agora em nosso tempo social em que as mulheres realizam suas maiores marchas já vistas na história; não apenas por direitos ditos femininos, como também direitos sociais das minorias, dos trabalhadores, dos transgêneros e espoliados pela máquina do mundo. Não mais como gênero, mas como coletivo. São Ofélia, em sua força e fragilidade, e Gertrudes, a rainha-mãe condescendente e adúltera de Müller, que portarão em cena o vermelho que contrasta com a forte presença do pretume que permeia todo o espetáculo: vermelho da morte, da dor, da donzela maculada, da carnificina, da violência, mas também o vermelho do sangue, liquido, da vida, do coração, da mudança. Em meio ao horror e putrefação do reino corrompido, os músicos nos lembram do artifício da construção, da história como alternativa.

Evocando Brecht e Artaud, valendo-se de atores e equipe de primeira linha, o Hamlet-ex-Máquina do Coletivo 42 nos posiciona entre a agressão, a crítica contundente e o possante metateatro que questiona nossa própria posição de atores/ espectadores e cidadãos conscientes e atuantes no mundo.

Se, como afirma Hamlet, já não há lugar para o (seu) drama, “nossas tragédias são quotidianas”, repete o coro em uníssono. Em tempos torpes em que nossas orquestras e corpos de baile são simplesmente dissolvidos a esmo, em que oficinas culturais e verbas para arte e cultura são sistematicamente cortadas, em que direitos de toda ordem são vilipendiados por gestores amesquinhados e medíocres em prol de cortes e custos pela máquina que nos governa, o Hamlet-ex-Máquina do Coletivo 42, com seu rei ilegítimo e sua corrupção avassaladora, mas também com seu coro de atores/  protagonistas e concepção para os quais “o resto” NÃO É, não pode ser, “silêncio”, é um espetáculo de reflexão fundamental nos tempos adversos – e no entanto tão visceralmente “humanos” – que a todos nos cercam.

*Mayumi Denise S. Ilari

Professora de Literaturas de Língua Inglesa

Departamento de Letras Modernas, USP

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