CRÍTICA: “MATERIAL BOND” OU O TEATRO, AS ARMAS E OS CARAMUJOS

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Foto: Bob Sousa
Foto: Bob Sousa

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – A partir da obra do dramaturgo inglês Edward Bond, a Kiwi Companhia de Teatro reflete sobre a violência, a (in)justiça, a (des)humanidade e o (des)equilíbrio presentes na sociedade contemporânea. O espetáculo permanece em cartaz na Oficina Cultural Oswald de Andrade até 25 de março.

Em determinado momento de Material Bond, uma projeção mostra um trem transportando tanques de guerra. O vídeo parece desconfortavelmente longo demais, e a quantidade de tanques, irreal. Por um segundo, me peguei pensando que o vídeo estava editado, em looping, e fui arrebatado pelo pensamento ingênuo de que o vídeo é falso porque obviamente não existem tantos tanques de guerra no mundo.

O pensamento que me veio em seguida é que não importa se o vídeo foi ou não manipulado. É óbvio, afinal, que existem tantos tanques assim no mundo – e muitos outros que não estão neste registro. Existe uma quantidade imensa de tanques, caças, mísseis, submarinos, rifles e demais elementos de guerra e eu nunca havia parado para pensar nisso.

No instante seguinte, me sinto tolo por nunca ter pensado na guerra de modo tão concreto; inocente por ter acreditado que quase não existiam armamentos no mundo.

Munidos com as armas de Edward Bond, a Kiwi Companhia de Teatro se propõe justamente a isso: mostrar os horrores do mundo, a partir do século XX (mas não se restringindo a este período de tempo), a fim de cobrar da plateia uma posição.

A lenta marcha dos tanques de guerra, somada aos poemas sobre como sobreviver na cidade dos lobos, às projeções de violência e às fábulas sobre a injustiça e a miséria monta um mosaico pessimista sobre o estado do mundo contemporâneo. Em determinado momento, o grupo afirma que o homem está preso numa roda e, ao tentar sair dela, põe em ação o mecanismo que o aprisiona.  Desta forma, o homem é, portanto, cativo de suas limitações éticas, morais, filosóficas, culturais e cognitivas, e não há forma de quebrar o ciclo vicioso – tentar fugir da roda é pô-la em movimento, fazê-la girar.

Ou, talvez, o modo como tentamos sair da roda é que seja o problema.

Durante o “falso intervalo” do espetáculo – uma das diversas estratégias de radicalizar a relação público/encenação/texto/atores/mensagem presentes no espetáculo –, Fernando Kinas, diretor do projeto, entra em cena e conta à plateia que caramujos têm um estado de consciência que dura três segundos. Tudo que ocorre nesse intervalo de tempo não é percebido pelo caramujo e, portanto, as mudanças que ocorrem nesse ínterim são ou ignoradas ou assimiladas como naturais, sempre existentes. Contudo, a inabilidade de percepção dos caramujos não impede os fatos de acontecerem, da mesma forma que minha crença de que não podem existir tantos tanques de guerra no mundo não impediu a fabricação de novos modelos.

Parece que o convite que o coletivo faz é que nos desafiemos a ampliar nossa percepção. Devemos notar não apenas a roda, mas o mecanismo como um todo, a fim de entendê-lo e não acioná-lo.

Claro que não há final feliz na fábula proposta, não existe esse maniqueísmo simplório de homem bom versus homem mau, e parece que, caso consigamos sair da roda, cairemos em outro mecanismo nos mesmos moldes. Afinal, a maldade, o horror e a desumanidade são partes inerentes de qualquer indivíduo. Ainda assim, é necessário ficar atento à nossa sombra, é preciso exercitar a atenção para além dos três segundos.

É necessário, a partir da expansão dos nossos limites éticos, morais, filosóficos, culturais e cognitivos – e, aparentemente, o teatro é um bom exercício para isso – desmontar a roda.

E, quando nos descobrirmos presos em outra, repetir o procedimento.

Material Bond
Direção e roteiro: Fernando Kinas
Elenco: Fernanda Azevedo (atriz) e Eduardo Contrera (músico)
Vídeo: Luiz Gustavo Cruz
Cenografia: Julio Dojcsar
Iluminação: Clébio Souza (Dedê)
Figurino: Madalena Machado
Confecção de marionete: Celso Ohi
Áudio inicial: Michael Moran
Produção e operações: Luiz Nunes e Daniela Embón
Realização: Kiwi Companhia de Teatro

Serviço
Até 25 de março. Quintas e sextas às 20h. Sábados às 18h.
Ingressos gratuitos, distribuídos uma horas antes da apresentação.
Oficina Cultural Oswald de Andrade – Anexo. Rua Três Rios, 363. Bom Retiro, São Paulo.

 

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