CRÍTICA: “MULHERES ÁCIDAS” TEM PROPOSTA AMBICIOSA AO RETRATAR O FEMININO DE 1970 a 2030

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Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – Com texto de Cristiane Wersom e direção de Cristiane Paoli Quito, comédia acompanha a vida de diferentes mulheres para versar sobre a poética e a efemeridade da existência humana. O espetáculo fica em cartaz até 29 de março no Teatro Eva Herz

Recepcionando a plateia um pouco antes de o espetáculo começar, Mariana Armellini e Cristiane Wersom (também autora do texto) estabelecem o clima de Mulheres Ácidas antes mesmo de o terceiro sinal soar. Simpáticas, carismáticas e irreverentes, as atrizes conquistam o espectador com rapidez, estabelecendo logo o acordo que vigorará durante a apresentação: não haverá um distanciamento entre palco e plateia, haverá margem para o improviso (marca da carreira das duas, aliás), e o despojamento será um dos pilares do espetáculo.

Sozinhas em cena, com um cenário simples, sem grandes mudanças de luz ou trilha sonora, as duas atrizes narram momentos da vida de várias mulheres, desde o final dos anos 1970 até 2030, compondo um mosaico aparentemente desconexo, mas que deixa suas ligações claras lá pelo final. Brincando com a teoria dos seis graus de separação e do efeito borboleta, o texto usa das vitórias, dos desejos, da necessidade (e da incapacidade) de se superar, e dos amores das personagens para falar do agridoce da vida, e de sua efemeridade.

É uma proposta bastante ambiciosa, essa de falar da vida, do tempo e das pequenas tragédias humanas – e de tudo o que sobrevive à vida, ao tempo e às pequenas tragédias humanas – em pouco mais de uma hora de espetáculo, numa abordagem minimalista que seria um desafio para qualquer ator. Mas Armellini e Wersom, apoiadas na direção limpa de Cristiane Paoli Quito, demonstram elegância na empreitada.

Quito organiza bem o texto no palco, auxiliando as atrizes na transição entre personagens e narradoras, e sabiamente fugindo de qualquer realismo ou ilusionismo que pudessem engessar o espetáculo. A diretora propõe um jogo simples, com rascunhos de personagens ao invés de construções cerebrais e super elaboradas, que valoriza o ritmo e ajuda o espetáculo a não cair nas armadilhas do melodrama. A preparação corporal de Fabrício Licursi colabora para esse objetivo, definindo posturas e gestos que auxiliam elenco e plateia a saltar de uma história para outra sem grandes dificuldades. Se a concepção funciona muito bem no arco da mulher e de sua manicure – as poses que Armellini e Wersom fazem sempre que vão falar dessas personagens; a lixa que nunca para e demonstra a falta de diálogo entre as duas etc. – ela obtém menos resultado na narrativa das duas idosas na casa de repouso. Interpretar um personagem tão mais velho já é um desafio para qualquer ator, especialmente quando o corpo do intérprete precisa transitar constantemente entre crianças, pós-adolescentes e mulheres na meia-idade, cada uma com suas especificidades. Mas as atrizes se perdem, propondo um peso e uma velocidade nos primeiros momentos que permanecem inconstantes, criando um desagradável ruído numa comunicação com a plateia que é cristalina nos outros momentos do espetáculo.

Ainda assim, o carisma e timing cômico de Armellini e Wersom – e sua capacidade de fazer drama em alguns momentos-chave sem serem piegas ou caírem no humor involuntário – salvam Mulheres Ácidas de qualquer defeito técnico menor.

Mulheres Ácidas
Texto: Cristiane Wersom
Direção Geral: Cristiane Paoli Quito
Elenco: CRISTIANE WERSOM e MARIANNA ARMELLINI
Assistência de direção: Leonardo Devitto
Preparação corporal: Fabrício Licursi
Figurinos: Marianna Armellini
Projeto de luz: Fabrício Licursi
Técnicos de Luz e Som: Cris Souto e Ciro Godoy
Mídia digital: Elemento Cultural
Projeto gráfico: Victor Bittow
Fotos: Vitor Vieira
Produção: Leonardo Devitto
Administração: Joca Paciello
Patrocínio: Eurofarma

Serviço
Até 29 de março. Terças e quartas às 21 horas (Dia 28/02, Carnaval, a sessão será as 18 horas)
Ingressos: R$ 40
Teatro Eva Herz. Conjunto Nacional – Avenida Paulista, 2073.

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