CRÍTICA: “O QUARTO ESTADO DA ÁGUA” REFLETE SOBRE A MASCULINIDADE

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Foto: Pedro Bonacina

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – Espetáculo dirigido por Bia Szvat analisa a relação de um pai e seu filho ao longo do tempo para investigar o que significa ser homem. A peça segue em cartaz no Top Teatro até 18 de junho, de sexta a domingo.

O que é ser homem? Para alguns, um homem é pura e simplesmente alguém que possui determinado conjunto de cromossomos e que apresenta características físicas que podem ser lidas como masculinas. Para outras pessoas, trata-se de uma questão de identidade: você é um homem caso se identifique como tal, independentemente do gênero designado ao nascimento. Existem, ainda, aqueles que acreditam que o binômio masculino-feminino não dá conta de abarcar sua identidade, se posicionando então como algo entre (ou além) destes dois.

Talvez ser homem tenha a ver com o reconhecimento: algo que surge da concordância e da discordância de se reconhecer como homem e de ser reconhecido como tal. De qual modo a sociedade percebe e reforça características entendidas como masculinas, e como a inclusão e a exclusão dos indivíduos a partir destes padrões atua não só na expressão e na percepção de mundo dessas pessoas, mas também na manutenção da ideia geral de o que é ser um homem padrão?

Em cartaz no Top Teatro, O Quarto Estado da Água , da Cia Pau D’Arco de Teatro, analisa a relação entre um pai e seu filho para falar de tempo, afeto e masculinidade.

Para aqueles que pensam que masculino é o antônimo de feminino, ser homem é um terreno bem delineado do qual não se deve sair, sob o risco de se afastar de seus pares e adentrar no terreno oposto – tornando-se, assim, irreconhecível e estrangeiro. Um homem gay, por exemplo, está na periferia deste território, e um gay passivo, mais ainda. Ser sensível (“homem não chora!”), não ser corajoso (“encare isso como um homem!”), não ser viril (“parece uma menininha!”) são outras características que desafiam o modelo John Wayne de ser, sendo constantemente criticadas e corrigidas pela interação social – como, por exemplo, a de pai e filho exposta pela dramaturgia.

Embora seja fundamentada no amor (o que é curioso, se pensarmos que homens eram e ainda são incentivados a não demonstrar afeto, sobretudo com outros homens), a relação entre pai e filho é conflituosa porque é desenvolvida a partir de aproximações e distanciamentos: ambos têm similaridades, seja por fatores genéticos ou ambientais, da mesma forma que possuem dissonâncias irreconciliáveis, posto que são duas pessoas diferentes, com subjetividades próprias.

A dramaturgia de Flavio Cafiero desenvolve-se a partir deste atrito: a tensão entre um pai conservador e seu filho, que se afasta do ideal paterno à medida que cresce e se torna emancipado. Trata-se não só da relação micro entre dois homens, mas de uma metáfora para os homens de antes e os de hoje. Como o modelo de masculinidade mostra-se desgastado ou, pelo menos, insuficiente para aqueles que experienciam e expressam sua identidade nos dias de hoje. O que significa beijar outro homem, para essa geração e as anteriores? O que significa dançar? O que significa tornar-se adulto, envelhecer, tornar-se pai e passar às próximas gerações modelos que talvez não façam mais sentido? O que significa ser vulnerável, formar laços, amar?

O paralelo com o quarto estado da água citado pelo texto faz sentido: assim como a água pode assumir um estado diferente dos três já conhecidos, homens têm encontrado novos meios de viver sua masculinidade, independente dos padrões anteriores.

A belíssima cenografia de Luiza Curvo dá conta da poética proposta pelo texto, colocando os personagens num lugar não-definido cronológica ou geograficamente, e explicitando a atmosfera de fábula. As brincadeiras com os diferentes estados da água são criativas, sobretudo as gotas de chuva que nunca caem. Além de lindas e funcionais (ora elas servem como parceiras de dança para os atores, ora dialogam com a iluminação, ora servem como mancebo para um paletó, numa cena particularmente importante), elas dão o tom de tempo suspenso onde passado e presente coexistem e onde todos os momentos da vida dos dois se desenrolam simultaneamente.

Com a mesma qualidade, a luz de Cesar Pivetti e Vânia Jaconis torna ainda mais bonito um espetáculo nitidamente pensado para ser visualmente potente. A iluminação também potencializa silêncios e subtextos, além de valorizar os momentos onde a peça se apropria da dança – recurso interessante para garantir que a comunicação com a plateia não se dê apenas através do discurso, mas que pode, eventualmente, soar um pouco repetitivo.

Elaborado em conjunto com toda a equipe criativa, O Quarto Estado da Água ganha pontos por organizar esse monte de influências (música, dança, cenografia, iluminação, dramaturgia, atuação etc) sem que uma atrapalhe ou se sobreponha à outra. Esta organização vai ao encontro da proposta dramatúrgica, de tentar apresentar as possibilidades de masculinidade sem necessariamente valorizar uma ou outra.

Como gênero é um tema em voga atualmente, O Quarto Estado da Água contribui para a reflexão. Não é necessariamente revelador ou revolucionário – e nem se pretende assim – mas mantem o debate aceso, o que é sempre válido.

O QUARTO ESTADO DA ÁGUA

Direção Geral:  Bia Szvat.
Dramaturgia: Flavio Cafiero.
Elenco: Anderson di Rizzi, Kiko Pissolato e Herbert Richers Jr.
Stand-in: Francisco Zaiden.
Assistente de Direção: Élder Idelfonso.
Direção Musical: Fabio Cintra.
Músicos: Thayna Oliveira, Ricardo Venturin e Gerson Silva Jr.
Design de Luz: Cesar Pivetti e Vânia Jaconis.
Cenografia: Luiza Curvo.
Figurinista: Marisa Caula.
Designer Gráfico: Pietro Leal.
Fotos: Pedro Bonacina.
Produção: Andreia Porto.
Assistentes de Produção: Lucas Martins Néia e Priscila Biade.

Serviço:
Até 18 de junho. Sexta às 21h30, sábado às 21h e domingo às 19h.
Ingressos: R$ 50,00 ou R$ 25,00 (meia-entrada)
Top Teatro. Rua Rui Barbosa, 201 – Bela Vista

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