CRÍTICA: “PARA NÃO MORRER”

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Para Não Morrer. Foto de Elenize Dezgeniski
Para Não Morrer. Foto de Elenize Dezgeniski

SÃO PAULO – A partir da obra Mulheres, de Eduardo Galeano, Nena Inoue cria um delicado elogio à força e à liberdade feminina. O monólogo encerra sua temporada no Sesc Pinheiros em 29 de julho.

Seres sociais que somos, nós, seres humanos dependemos muito da nossa habilidade de nos comunicar. É através da comunicação que passamos conhecimento, que negociamos, que nos expressamos. É através da comunicação que vivenciamos histórias que jamais vivenciaríamos de outros modos – seja pela oralidade, pela escrita ou pelo audiovisual. É através da comunicação que forjamos e louvamos heróis e é por meio dela, também, que denunciamos.

O teatro é uma forma de comunicação, da mesma forma que a crítica é uma resposta a isso, é uma tentativa de manter a conversação acontecendo.

Ciente do poder inerente a este ritual ancestral de falar e ouvir, Para Não Morrer concentra sua energia aí, e esconde um grande requinte técnico por trás de uma aparente simplicidade.

Sozinha no palco, a atriz e idealizadora Nena Inoue demonstra um bom domínio sobre a platéia e a dramaturgia de Francisco Mallmann, tecendo com palavras um panorama sobre a mulher (sobretudo a latinoamericana) e as violências às quais ela está sujeita, sejam de ordem política, social ou histórica.

Apropriando-se de imagens ancestrais presentes no inconsciente coletivo, tais quais a grande mãe e a árvore da vida, e aliando a elas um discurso informal, quase descontraído, Inoue, Mallmann e a diretora Babaya Morais produzem um interessante estranhamento, de onde surge o insuspeito humor do espetáculo, e que reforça a afirmação da dramaturgia de que há um tipo de resistência que é como a água que escorre, delicada mas difícil de represar.

Da mesma forma, Para Não Morrer aposta numa resistência não convencional à violência, seguindo por vias poéticas, louvando suas heroínas e passando suas histórias adiante, evitando que o esquecimento e o descaso, essas outras formas de morte, as vitimem. Ao mesmo tempo, o espetáculo convida as mulheres na plateia a se perceberem como heroínas de suas próprias narrativas, fortalecendo assim a resistência e a emancipação que parecem tão caras ao projeto.

Se sozinho funciona bem, observado ao lado de espetáculos como Quarto 19 A Domadora, que também optavam por um registro intimista para falar da mulher, Para Não Morrer segue a onda do interesse (ou necessidade) recorrente em tratar cenicamente de questões pertinentes ao universo feminino e à denúncia das violências inerentes ao formato patriarcal de nossa sociedade.

Não se trata apenas de uma escolha curatorial do Sesc Pinheiros, que abrigou os três espetáculos citados, mas de um movimento que pode ser percebido em outras produções contemporâneas – citemos, por exemplo, o bom Mil Mulheres e Uma Noite, de temática muito próxima a Para Não Morrer que esteve em cartaz na Oficina Cultural Oswald de Andrade na primeira metade de 2017.

É necessário, de fato, que se fale sobre a violência e a opressão, a fim de provocar a reflexão necessária para impedí-las ou, ao menos, miná-las. Que bom que esta necessidade tem gerado respostas poéticas tão frequentes e interessantes quanto as que têm ocupado os palcos paulistas este ano.

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

Para Não Morrer
Idealizadora e Atriz – Nena Inoue.
Parceria de Direção – Babaya Morais.
Dramaturgia – Francisco Mallmann (à partir da obra de Eduardo Galeano).
Iluminação – Beto Bruel.
Criação de Figurinos/Adereços – Carmen Jorge.
Cenário – Ruy Almeida.
Design de Som/Trilha Original – Jo Mistinguett.
Técnico Operador – Vinicius Sant.
Fotografia – Marcelo Almeida.
Vídeos Teaser – Alan Raffo.
Designer Gráfico – Martin Castro.
Assessoria de Imprensa/SP – Adriana Balsanelli.
Produção Executiva e Administração –  Caroll Teixeira.
Direção de Produção – Nena Inoue.
Realização – Espaço Cênico.

Serviço

Até 29 de julho. Quinta a sábado, às 20h30.
Ingressos: R$ 25 (inteira), R$ 12,50 (meia), R$ 7,50 (credencial plena).
Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195. Pinheiros, SP.

 

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