CRÍTICA: “ROQUE SANTEIRO” TEM TEXTO ORIGINAL ENCENADO EM FORMATO MUSICAL E ABRE FERIDAS SOCIAIS

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"Roque Santeiro" é uma das boas surpresas do teatro musical brasileiro. Foto: Priscila Prade.

Kyra Piscitelli, do Aplauso Braisl (kyra@aplausobrasil.com.br)

“Roque Santeiro” é uma das boas surpresas do teatro musical brasileiro. Foto: Priscila Prade.

SÃO PAULO – A novela Roque Santeiro marcou a teledramaturgia brasileira. Sucesso de 1985, só conseguiu ir ao ar depois que o país estava em processo de democratização e com um texto mais brando em críticas sociais. Mas agora, o público tem a chance de conferir a peça original e em formato musical.

A história do Roque Santeiro, na verdade, foi uma adaptação da peça O Berço do Herói, escrita em 1963. O sucesso da novela, claro, fez o autor reescrever alguns pontos da primeira versão. Seria impossível, por exemplo, não manter o nome dos personagens consagrados na televisão. Mas, ainda assim, a versão do livro é bem diferente da que se popularizou perante o público e isso é importante deixar claro.

As canções executadas ao vivo pelos 13 atores em cena e os músicos André Bedurê (baixo e violão) e Érico Theobaldo (guitarra, percussão e eletrônicos) dão força para a narrativa forte de Dias Gomes. A trilha assinada porZeca Baleiro são certeiras e foi uma alternativa muito mais coerente com a proposta inovadora da montagem do que usar a trilha original da novela global, fato que foi cogitado.

O musical em cartaz no Teatro Faap, na verdade, é outra produção, que mais lembra a novela nos conhecidos nomes dos protagonistas: a Viúva Porcina, o Sinhozinho Malta e o Cabo Roque. O texto, aos ouvidos atentos, é ácido e do tamanho de Dias Gomes: traz coragem e uma realidade tão atual que mal parece ter sido escrita há tantas décadas.

Dias Gomes mistura elementos regionais como o famigerado coronelismo brasileiro e até a questão militar com fatores universais quando trata, por exemplo, da criação e desmistificação do herói.

A música de Baleiro combina de tal forma que parece criada junto com o texto. A dramaturgia, aliás, é o ponto forte da montagem. Isso é um ponto positivo para aqueles que não suportam musicais todo cantado: a música serve ao texto, então, há diálogos e as canções – em alguns momentos – soam declamadas para dar potência às situações tratadas em cena.

Por tanto é bom que quem for ao teatro não espere ver a novela e sim uma crítica social que faz pensar o ‘jeitinho brasileiro’, a desigualdade, o momento político. Além de espelhar o poder e o herói de forma mais forte do que a novela fez.

As comparações devem fugir dos ícones da televisão – tarefa difícil para qualquer um. Os personagens imortalizados por Lima Duarte, José Wilker e Regina Duarte grudam na cabeça e povoam o imaginário. É importante reforçar esse ponto para que o público vá aberto e, dessa maneira, certamente estarão prontos para uma boa surpresa.

A diretora Debora Dubois tem no elenco grandes nomes do teatro e do teatro musical como Jarbas Homem de Mello na pele Chico Malta, Livia Camargo na interpretação de viúva Porcina, Flávio Tolezani no papel Roque Santeiro, Mel Lisboa como Mocinha, filha de Dona Pombinha, vivida pela atriz Nábia Villela, e do prefeito Florindo Abelha, feito por Dagoberto Feliz.

Ainda que sobre, em alguns momentos espaço vazios em cena e falte um respiro, com os tradicionais intervalos nos musicais (o espetáculo é curto, mas denso no enredo), Roque Santeiro, o musical vale para quem gosta de sair do local comum. No fim, um bom texto não precisa de excelentes atuações ou soluções mirabolantes para funcionar. Essa é a mensagem do espetáculo que é corajoso ao fugir do conforto do consagrado para reviver uma obra na essência e surpreender positivamente.

Serviço
Estreia 27 de janeiro
Teatro FAAP – www.faap.br/teatro
Sextas e Sábados às 21h e Domingos às 18h
Rua Alagoas, 903 – Higienópolis, São Paulo
Tel. (11) 3662-7233 / 7234
Duração 120 minutos
Classificação indicativa – 14 anos
Ingressos: Sextas R$ 80,00 (inteira); R$ 40,00 (meia). Sábados e Domingos R$ 90,00 (inteira); R$ 45,00 (meia)
Bilheteria quarta a sábado das 14h às 21 e domingo das 14h às 18h
Estacionamento no local

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