CRÍTICA: “SONHOS NÃO ENVELHECEM”, OU SOBRE O RISO SUTIL

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Foto: Ronaldo Gutierrez
Foto: Ronaldo Gutierrez

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – Núcleo Experimental reimagina comédia fantástica de Shakespeare e mescla uma trama de encontros e desencontros amorosos com músicas do Clube da Esquina. O espetáculo segue em cartaz até dia 26 de março na sede do grupo.

Talvez sejam necessários um ou dois minutos para entender e aceitar a proposta de Sonhos Não Envelhecem , justamente pelo espetáculo encontrar-se num limiar muito sutil entre seguir à risca o texto-base Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare, e apresentar um espetáculo autoral. É preciso de um tempo para entrar no estado de espírito ideal para a peça, para comprar o jogo de aproximação e emancipação proposto pela diretora, adaptadora e preparadora de voz Fernanda Maia.

Em Sonhos Não Envelhecem, a clássica trama dos enamorados atenienses que se perdem num bosque encantado e têm seus amores manipulados por seres mágicos é embalada por algumas canções do Clube da Esquina, movimento musical mineiro dos anos 1960 que experimentava MPB, bossa nova, rock progressivo, jazz fusion e música regional. A opção de transformar a comédia num musical é a maior prova da segurança de Maia em apoderar-se na obra de Shakespeare. É uma opção corajosa e inventiva e, embora não seja necessariamente funcional, estabelece a contento a atmosfera da peça.

Não é funcional porque, afinal, a dramaturgia original sustenta-se perfeitamente bem sem a inclusão das músicas, e se uma ou outra música acabam pontualmente casando-se organicamente com a narrativa (“Fé Cega, Faca Amolada”, por exemplo, é utilizada de modo original para comentar a aventura amorosa que de desenrola no bosque mágico; e a brincadeira com “Maria, Maria” é engraçada) , em muitas outras vezes a inserção das canções parece burocrática, pouco inventiva e culpada pela eventual perda do ritmo. Por outro lado, a experimentação sonora e poética que marcou o Clube serve para instaurar uma atmosfera delicada, de um lirismo sutil, que faz muito bem à encenação.

Se o uso das músicas soa um pouco irregular, com o saldo sendo positivo ou negativo, dependendo do gosto pessoal do espectador, a movimentação de cena é, de modo geral, bastante vigorosa e bem-acabada.

Desdobrando-se em três arcos – o casamento de dois nobres atenienses e a ciranda de paixões de quatro de seus súditos; o grupo de atores que se apresentará nas bodas; e o duelo entre o Rei dos Elfos e a Rainha das Fadas –, o elenco mostra uma boa versatilidade ao alternar entre diversos personagens e registros de interpretação. Destes três planos, o mais bem-resolvido é o da trupe de atores, onde o uso da farsa e do grotesco valoriza o humor e serve de contraponto à elegância das músicas e aos eventuais vícios de teatro musical. O registro um pouco mais realista no arco de Helena/Demétrio/Hérmia/Lisandro também obtém algum resultado, mas o flerte constante com a farsa – que é melhor executada na trama dos mambembes – mais suja do que enriquece, embora seja perceptível a escolha da diretora de satirizar a concepção convencional dos enamorados. Ainda assim, um pouco mais de definição na hora de separar um registro do outro talvez pudesse enriquecer o desenho dos personagens e suas particularidades.

Parte conjunta de um projeto maior do Núcleo Experimental, cuja outra metade é a versão do grupo para Romeu e Julieta, Sonhos… também encontra espaço para falar de liberdade de amor (ao som de “Paula e Bebeto”) na cena do casamento múltiplo. Defender a diversidade afetiva é uma postura coerente com o histórico do Núcleo, mas parece que a mensagem seria ainda mais potente se não se limitasse a apenas uma música. Homossexualidade, bissexualidade ou poliamor não são abordados nem antes nem depois dessa passagem, de modo que a mensagem é simpática, mas pouco ressoante com o todo. As músicas finais sofrem do mesmo mal, apresentando uma moral da história que soa um pouco descolada do resto do espetáculo.

Ainda assim, os dedicados atores e atrizes defendem bem a montagem. Cantando com competência mesmo sem microfones e variando entre diversos personagens, o elenco é um dos pontos mais altos do espetáculo. Embora apresentem dificuldades aqui e ali, eles também têm espaço de sobra para mostrar talento e desenvoltura – e do bom elenco vale a pena prestar atenção na excelente Beatriz Amado, carismática e engraçada.

Divertido e azeitado, Sonhos… mantém a qualidade dos espetáculos do Núcleo Experimental, ao passo em que joga uma nova luz sobre uma das peças mais montadas de Shakespeare. Se afasta da comédia rasgada e sexual – como eventualmente é encenada – e provoca um sorriso mais delicado, com uma musicalidade particular.

Sonhos Não Envelhecem
Adaptação de Texto, Direção, Direção Musical e Preparação Vocal: Fernanda Maia
Assistente de Direção Musical: Bibi Cavalante
Preparação de Elenco: Inês Aranha
Cenário e Figurinos: Zé Henrique de Paula
Assistente de Cenografia e Figurinos: Cy Teixeira
Iluminação: Fran Barros
Fotos: Ronaldo Gutierrez
Elenco: Andressa Andreatto, Bibi Cavalcante, Beatriz Amado, Júlia Maia, Leandro Oliveira, Luiz Rodrigues, Marcos Teixeira, Miriam Madi e Tito Soffredini
Músicos: Betinho Sodré (Percussão) Amanda Ferraresi (Violoncelo) Luiz Aranha (Violão)

Serviço
Até 26 de março. Sextas e sábados, 21h; Domingos, 19h.
Teatro do Núcleo Experimental. Rua Barra Funda, 637
Ingressos: R$ 40,00

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