CRÍTICA: UMA VIAGEM COM SUASSUNA PELA ESPERANÇA BRASILEIRA

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"O Auto do Reino do Sol". Divulgação

SÃO PAULO – Sábado à noite e fui ao Sesc Vila Mariana assistir o espetáculo Suassuna – O Auto do Reino do Sol, da Barca dos Corações Partidos. O Teatro estava lotado. Quando me sentei no meu lugar, uma senhora ao meu lado me cutuca. “Ei, você viu Auê? A referência ao último espetáculo do grupo, encenado em curtíssima temporada no Teatro Faap, me surpreendeu. Respondi que sim, ainda tonta e a senhora me conta que para ela “Auê é que é musical brasileiro e ela havia até levado o sobrinho, que foi a primeira vez ao teatro e se apaixonou”. Dei um sorriso e ela emendou: “esses meninos são bons. Dão alegria e levam mensagem. É isso que eu espero hoje”. Não precisei perguntar para a tal senhora se as expectativas foram atendidas. Ela me lançou um tchau de sorriso largo e a plateia aplaudiu por quase 10 minutos – eu cronometrei.
 
Escolhi esse modo não usual de começar uma crítica porque a história transpassa o estilo e espírito do espetáculo. Auê foi um dos melhores espetáculos de 2016 e O Auto do Reino do Sol segue o mesmo caminho. Embora os dois espetáculos sejam muito diferentes, eles chegam no mesmo lugar. O público reage vivo à cena. Impossível se fingir indiferente e apesar de mensagens realistas durante o espetáculo, a esperança e a alegria tomam conta da plateia. É um bom remédio para dias tristes.

A história é realmente um musical brasileiro cheio de beleza. De pôr Suassuna orgulhoso. Os meninos da Barca dos Corações partidos são atores e cantores completos. Mas, na peça em questão, a movimentação corporal e o belíssimo trabalho de circo enchem os olhos e te fazem querer voltar no tempo.

O roteiro de Braulio Tavares conta a história de dois mundos diferentes por meio de um jovem casal apaixonado foragidos das guerras familiares do sertão nordestino com um circo-teatro formado por artistas saltimbancos que vagueiam em meio a retirantes, coronéis e jagunços com destino a Taperoá, na Paraíba. O universo de Ariano Suassuna é dirigido com cuidado e em detalhes Luiz Carlos Vasconcelos e completado com canções de Chico César (em parceria com Beto Lemos e Alfredo Del Penho).

 

A cenografia de Sérgio Marimba é fundamental para a movimentação em cena, com elementos como uma carroça estilizada. O figuro assinado por Kika Lopes e Heloisa Stockler também responde bem ao universo encantado e de cores que remete a Suassuna, mas é a luz do espetáculo, a grande estrela. Renato Machado remonta as cores e nuances do sertão de tal modo que você pode ver e sentir o sol quente do sertão. Uma verdadeira viagem.

Eduardo Rios, Beto Lemos, Alfredo Del Penho, Renato Luciano, Adrén Alvez, Fabio Enriquez e Ricca Barros mesclam suas influencias e reconstroem o universo de Suassuna ao lado da atriz convidada Rebeca Jamir.

O Auto do Reino do Sol é um trabalho coletivo, no qual todos têm seu grande ou seus grandes momentos, mas é Ádren Alves como Madame Sultana, a dona do circo, e  Eufrásia, a senhora líder do clã dos Fortunato que rouba a cena quando entra. Uma atuação de fazer cair o queixo.

O Auto do Reino do Sol mostra a nossa riqueza e pobreza brasileira. Realista, o espetáculo consegue nos lembrar o melhor do brasileiro: a esperança. Assim era Suassuna, que com certeza, se orgulharia de ver seu universo tão cuidadosamente representado e cantado.

 

SUASSUNA – O AUTO DO REINO DO SOL
Uma encenação de Luiz Carlos Vasconcelos
Texto: Bráulio Tavares
Música: Chico César, Beto Lemos e Alfredo Del Penho
Idealização e Direção de Produção: Andrea Alves
Com a Cia. Barca dos Corações Partidos: Adrén Alves, Alfredo Del Penho, Beto Lemos, Fábio Enriquez, Eduardo Rios, Renato Luciano e Ricca Barros.
Atriz convidada: Rebeca Jamir
Artistas convidados: Chris Mourão e Pedro Aune
Cenografia: Sérgio Marimba
Iluminação: Renato Machado
Figurinos: Kika Lopes e Heloisa Stockler
Design de som: Gabriel D’Angelo
Assistente de direção: Vanessa Garcia
Coordenação de Produção: Leila Maria Moreno
Produção Executiva: Rafael Lydio

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