FELIPE HIRSCH E ULTRALÍRICOS TRAZEM AS RAÍZES DO CONSERVADORISMO NO BRASIL EM NOVA MONTAGEM

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SÃO PAULO – Livros e documentos da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin e sobre a Bibliographia Brasiliana, pesquisada por Rubens Borba de Moraes, são o mote do novo projeto de Felipe Hirsch e Ultralíricos. Em cartaz no SESC Vila Mariana, até dezembro de 2017, Selvageria continua a investigação literária que começou em Puzzle, espetáculo dividido em quatro partes que levou para o palco a obra de escritores brasileiros contemporâneos e a A Tragédia Latino-Americana e A Comédia Latino-Americana, ptico encenado a partir de autores latino-americanos e de questões sociais do continente.

Em Selvageria, aparecem textos que começam com a famosa Carta de Pero Vaz de Caminha ao Rei Dom Manuel (1500), passam por relatos, decretos, diários e chegam ao Triste Fim de Policarpo Quaresma (1911), de Lima Barreto, único texto da montagem não originado de um documento histórico. Todos os textos, segundo o diretor, colocam luz nas nossas raízes.

Além de dar continuidade à parceria com a equipe criativa (Daniela Thomas e Felipe Tassara na Cenografia e Direção de Arte, Beto Bruel na iluminação, Arthur de Faria na Música), Hirsch dirige o elenco formado por Blackyva, Bruno Capão, Caco Ciocler, Crista Alfaiate, Danilo Grangheia, Georgette Fadel, Isabel Zuáa e Magali Biff. A Ultralíricos Arkestra (Arthur de Faria, Adolfo Almeida Jr., bella, Dhiego Andrade, Mariá Portugal e Thomas Rohrer) interpretará ao vivo as canções da Trilha Sonora composta e arranjada por Arthur de Faria.

Os textos:

Carta a El-Rei D. Manuel (Pero Vaz de Caminha, Portugal, 1500)

É o primeiro documento histórico sobre a descoberta do Brasil. A carta redigida por Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota liderada por Pedro Álvares Cabral, descreve ao Rei de Portugal D. Manuel como era a terra e os nativos que nela habitavam. Nota-se o deslumbramento dos europeus ao se depararem com os selvagens e as belezas naturais do chamado Novo Mundo. As descrições retratam o primeiro contato com os nativos, menções ao Pau-Brasil, à Primeira Missa na Nova Terra e aos primeiros escambos feitos entre os descobridores e os indígenas. Como uma grande epígrafe do que viria ser a intervenção dos europeus sobre a história do Brasil, Caminha escreve a despeito da riqueza natural da nova descoberta: “Porém o melhor fruto, que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar”.

Cest la dedvction du sumptueux ordre plaisantz spectacles et magnifiquves thea-tres dresse, et exhibes para les citoiens de rouen ville metropolitaine du pays de Normandie, a la sacre maiesté du treschristian roy de France, Henry Secõd leur souuerain seigneur, et à tresillustre dame, ma dame Katharine de Medicis, la royne son espouze, lors de leur triumphant ioyeulx et nouvel aduenement en icelle ville, qui fut es iours de mercredy et ieudy premier et secöd iours doctobre, mil cinq cens cinquante et pour plus expresse intelligence de ce tant excellent triumphe, les figures et pourtraicts des principaulx aornementz diceluy y sont apposez chauscun enson lieu comme lon pourra veoir parle discours de lhistoire (Robert Le Hoy e Jean Du Gord, França, 1551)

Em outubro de 1550, Henrique II, Rei da França, e sua esposa, Catarina de Médici, fizeram uma entrada solene na cidade de Rouen. Como era de hábito, foram realizadas pomposas celebrações. O ponto alto dessas festividades foi, porém, a reconstituição de uma aldeia indígena brasileira em praça próxima ao rio. Cerca de cinquenta índios brasileiros, que haviam sido trazidos de seu país por marinheiros normandos e que viviam na cidade, foram reunidos para povoar esta floresta. Para perpetuar a memória dessas magníficas festividades, Jean du Gord, famoso livreiro de Rouen, ordenou a impressão desse livro, que contém a descrição completa da festa brasileira em duas páginas.

Essais (Des Cannibales) (Michel de Montaigne, França, 1580)

Os mesmos índios que estavam na Festa Brasileira, em Rouen, continuaram a viver na cidade e foram durante anos uma das atrações turísticas do lugar. Quando o Rei Carlos IX visitou a cidade em 1562, foi apresentado a eles. Montaigne testemunhou o fato, e deve ter conservado vívida lembrança, pois se refere aos índios na famosa passagem “Dos Canibais”, presente em seus Ensaios.

Histoire de la Mission des Pères Capucins en lIsle de Maragnan et terres circonvoisines (Claude DAbbeville, França, 1614)

A obra narra a missão dos capuchinhos franceses ao Maranhão em 1612, integrada pelos padres Yves d’Evreux, Arsène de Paris, Ambroise d’Amiens e Claude d’Abbeville, numa tentativa de colonização do Norte do Brasil e de evangelização dos índios.

Voyage dans le nord du Brésil fait durant les années 1613 et 1614 (Yves D’Evroux, França, 1615)

Escrita com a intenção de completar a obra de Claude d’Abbeville publicada no ano anterior, Voyage dans le nord du Brésil omite o que já fora dito. Yves d’Evreux, tendo vivido um ano e meio a mais na região, trata de detalhes como a fauna e a vegetação tropical do próprio Maranhão, ao passo que d’Abbeville conta somente a história da missão. As muitas descrições publicadas sobre a ida dos capuchinhos franceses ao Maranhão levam a crer que os padres realizaram uma verdadeira campanha de publicidade em torno das expedições.

Campagne du Brésil faite contre les portugals (Louis Chancel de Lagrange, França, 1711)

À bordo da fragata L’Aigle, um dos 17 navios da armada francesa, o 1º Tenente Louis Chancel de Lagrange relata o assalto e a tomada do Rio de Janeiro em 1711, pela expedição comandada por René Duguay-Trouin.

Letters from the Island of Teneriffe, Brazil, the Cape of Good Hope, and the East Indies (Mrs. Jemima Kindersley, Inglaterra, 1777)

Mrs. Kindersley foi a primeira mulher a escrever uma narrativa sobre o Brasil. De origem inglesa, casou-se em 1762 com o oficial de uma companhia das Índias Orientais, motivo pelo qual os dois viajaram duas vezes às colônias em expansão.

Voyage Autour du Monde (Jacques Arago, França, 1822)

Jacques Arago, artista da expedição científica chefiada por Claude-Louis de Freycinet, escreveu o relato da viagem num estilo muito espirituoso e divertido. Sua expedição chega ao Rio de Janeiro em 1817 e Arago fornece uma longa descrição de sua estada em Guanabara. É um dos raros documentos que retratam em detalhes o Cais do Valongo, um dos maiores portos escravagistas do mundo. Suas inúmeras histórias impressionam pela realidade com que descrevem a crueldade física e moral praticada contra os escravos. A obra nunca foi traduzida ou publicada no Brasil.

Narrative of a voyage to Patagonia and Terra del Fuego, through the Straits of Magellan (John McDouall, Inglaterra, 1833)

O autor esteve de passagem pelo Rio de Janeiro em 1826 e foi mais um dos viajantes a testemunhar o triste espetáculo que se apresentava no Cais do Valongo.

Illustríssimo Senhor Luiz da Cunha / Meu Marido Senhor Luis (Teodora da Cunha e Claro Antônio dos Santos, Brasil, 1866 / 1867)

As cartas da escrava africana Teodora, escritas pelo brasileiro também escravo, Claro Antônio dos Santos, foram descobertas no Arquivo Público do Estado de São Paulo. Ao complementar o serviço de carpinteiro com alguns vinténs advindos da sua habilidade com a escrita, Claro foi autor de inúmeras cartas enviadas como expressão da vontade de Teodora e de outros escravos analfabetos.

 

Lei Saraiva (Brasil, 1888)

Oficialmente, é o Decreto nº 3.029, que entrou em vigor dia 9 de janeiro de 1881, e teve como redator final o Deputado Geral Rui Barbosa. O decreto instituiu, pela primeira vez, o Título de Eleitor. Entre suas medidas excludentes, está a proibição do voto de analfabetos e de brasileiros que possuam renda inferior a 200$, com exceção dos que ocupam os cargos listados nos artículos da Lei. Além disso, impôs uma série de multas para quem descumprisse seus termos, impedindo definitivamente que as massas da população tivessem representação e voz política, inclusive as mulheres, para quem a lei conservou a inaptidão ao voto

 

Triste Fim de Policarpo Quaresma (Lima Barreto, Brasil, 1911)

Exceção, o trecho de Lima Barreto é o único texto não originado diretamente de um documento. De onde mais, porém, teria saído Policarpo Quaresma, apaixonado pela Pátria, conhecedor dos rios, dos “heróis do Brasil”, “das suas cousas de tupi”, das mutilações “em todos os países históricos”? O que nos resta depois de uma história impregnada nas raízes de um conservadorismo bastardo, do qual ainda dividimos as louças?

 

Direção: Felipe Hirsch
Com: Blackyva, Bruno Capão, Caco Ciocler, Crista Alfaiate, Danilo Grangheia, Georgette Fadel, Isabel Zuáa, Magali Biff, Arthur de Faria, Adolfo Almeida Jr., bella, Dhiego Andrade, Mariá Portugal e Thomas Rohrer
Cenografia: Daniela Thomas e Felipe Tassara
Trilha Sonora Original: Arthur de Faria
Iluminação: Beto Bruel
Figurinos: Veronica Julian
Direção de Movimento: Alejandro Ahmed
Direção de Produção: Luque Daltrozo

Sesc Vila Mariana

  1. Pelotas, 141, tel. (11) 5080-3000

Datas da temporada: de 03 de novembro a 17 de dezembro de 2017.

Horários: de quinta a sábado, às 20h; domingos, às 18h

Ingressos: R$40 / R$20 / R$12
16 anos

Foto/crédito: Patricia Cividanes

Kyra Piscitelli, do Apaluso Brasil (kyra@aplausobrasil.com.br) 

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