RESENHA: A DANÇA POÉTICA DE DEBORAH COLKER

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SÃO PAULO – É difícil descrever a exuberância técnica dos bailarinos da Cia Deborah Colker, que nos fazem confundir entre homens e caranguejos e outros bichos. Poderiam ser os galos ‘tecendo a manhã’, também exuberantes do poema de João Cabral de Melo Neto, mas, são os bichos de ‘cão sem plumas’, que sem dúvida, fez da dança, verso-dançado. E por certo aqui, imortalizado.

Se Severino, em busca de água como símbolo da vida, sai retirante e vai trombando com desgraças em Morte e Vida Severina, de 1954, mas, lá adiante, tromba com a vida, nesse poema de dantes (1950), os treze bailarinos nos integram de maneira quase sobre humana, numa androginia de um mangue aquoso de solidão, onde a vida passa, só que lodosa e enferrujada.

Na poesia, então dançada, a crueldade que vemos e vivemos entre nós atinge um ponto que incomoda, corrói, e nos põe lá no meio do Capibaribe, cravados sem dó numa solidão que parece não ter fim. Como nossas veias, já cansadas, tortas e quase secas, tamanho descaso humano desse país, que como o poema, vai passando cambaleante por falta de atenção. Que é nossa também.

É a secura coreográfica então, que nos eleva, com movimentos milimétricos e dificílimos, mas, sincronizados e tão bem executados que realmente acreditamos fazer parte de uma natureza subterrânea, submersa em mangues e tijolos áridos de um rio que geme seco. Nós-secos.

E, ainda assim, a força bruta in natura espelha-nos em excelência poética onde se vê dança, teatro, cinema e poesia, e em música que lateja nos silêncios de solos impecáveis ou em pas des deux ou pas des quatre de mulheres-garças, também já enlameadas e, por isso, se bicam mortas-vivas. E estão nesses detalhes todos o que Deborah, assim como o poeta, apresenta numa teoria da percepção, diferenciando-se dele apenas no pessimismo.

Aqui, a dança em canaviais oriundos do céu e não só das queimadas, anuncia esperança. Uma esperança em pernas fortes e alongadas, em gestos quebradiços onde se vê dedos se transformando em garras e um corpo barrento que mesmo barrento, enxergamos plumas. Podemos voar. Podemos nos erguer como os ribeirinhos o fazem em suas palafitas. Ou nos caixotes-caçuás agigantados como jaulas-prédios. E juntos, vociferar. Queremos. É preciso. É o que essa dança nos diz, ali, esfregando os corpos fortíssimos por fora na nossa cara, e também as almas empalidecidas, “irmãos das almas”.

Se lá de 1950, João Cabral empedrou seu poema na desesperança dos políticos-caranguejos que só pra trás andam – e assim hoje continuam – o homem pode se simbiotizar e bicho virar, enxergando como na métrica do poema, a si mesmo no reflexo do rio. Desnudos à medida que aquele e outros tantos rios, também vão se despindo.

Se a fusão dói, ao mesmo tempo torna-se nobre, porque é o homem/meio exposto de forma tão contundente pela dança, que nos vemos querendo dançar. Se pela dor podemos nos conhecer e conhecer o mundo, que ela venha pela dança. Uma dança simétrica na criação por uma equipe impecável, como o cineasta Claudio Assis, Jorge du Peixe; Lirinha e Berna Ceppas na música; Jorginho de Carvalho na Luz; Gringo Cardia na direção de arte; João Elias na Direção Executiva e Gledson Teixeira na Produção.

Valeu mais que a pena a ‘residência artística’ em Pernambuco e o envolvimento com profissionais de lá. O sertão nunca foi tão exposto e numa veracidade que por momentos, dá medo.

Cão Sem Plumas é uma dança endeusificada que no sentido mais amplo do termo, te faz sair do chão.

 

“…. Seria a água daquele rio, fruta de alguma árvore? Por que parecia aquela uma água madura? Por que sobre ela, sempre, como que iam pousar moscas?

 

Serviço
Cia. de Dança Deborah Colker – Cão sem Plumas 
De 25 de agosto a 2 de setembro.
Terças, quartas e quintas-feiras, 21h. Sextas-feiras, 21h30. Sábados, 15h (apenas no dia 2 de setembro) e 20h. Domingos, 18h.
Ingressos – Setor I: R$ 160,00 – Setor II: R$ 160,00 – Setor III: R$ 90,00 – Setor IV: R$ 50,00.
Cartão Petrobras e Força de Trabalho: 50% na compra de até 2 ingressos por apresentação. Desconto não cumulativo.
Teatro Alfa – Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, tel. (11) 5693-4000.

Site: www.teatroalfa.com.br. Ingresso rápido ou pelos telefones:

11 5693-4000 | 0300 789-3377. Duração – 2 horas. Classificação – 14 anos.

Acessibilidade – motora e visual. Estacionamento: Sala A. Vallet R$ 45,00

Self Park R$ 31,00. Sala B. Vallet R$ 30,00 Self Park R$ 20,00.

Mais informações pelo site www.teatroalfa.com.br/temporada2017.

Darson Ribeiro, para o Aplauso Brasil

 

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