RESENHA: DANIEL ALVIM DIRIGE PEÇA QUE QUESTIONA COMPORTAMENTO CONTEMPORÂNEO

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SÃO PAULO – O dramaturgo inglês Nick Payne — autor da peça Constelações encenada recentemente —, em seu primeiro e premiado texto teatral, Se existe eu ainda não encontrei, propõe uma profunda reflexão sobre o comportamento humano nos dias atuais.

A trama é centrada numa pequena família moradora de uma cidadezinha inglesa, em que cada um vive seu mundo particular, com suas preocupações humanitárias, mas que desprezam os sentimentos mais íntimos dos familiares. Falta afeto, comunicação, entendimento.

“Nick Payne se apropria dos problemas do Planeta e das relações do ser humano. Seus personagens são muito humanos e a gente se identifica com eles imediatamente”, afirma o diretor.

A trama é centrada num núcleo familiar pequeno: George, o pai vivido por Leopoldo Pacheco, é um cientista estudioso das consequências das emissões de carbono no Planeta; Fiona, a mãe interpretada por Helena Ranaldi, é professora e está prestes a estrear um musical com os alunos e Anna, a filha vivida por Liv Zieze, sofre bullying na mesma escola da mãe por estar acima do peso. Os pais estão preocupados com questões mais gerais e desprezam o sofrimento da filha, além do distanciamento afetivo entre eles e o Alzheimer da sogra de George. O quarto personagem, Terry interpretado por Luciano Gatti, chega exatamente para abrir os olhos dos parentes. Desajustado, vive pelo mundo depois de um amor frustrado, o jovem volta pra casa do irmão e, por meio de suas interferências, é que todos começam a rever suas relações amorosas dentro de casa. Terry é quem aponta os paradoxos e contradições desta família.

Além da identificação com as situações vividas pelos personagens e dos temas que afligem a todos nós hoje em dia (aquecimento global, emissão de CO2, mal de Alzheimer e incomunicabilidade), a peça provoca uma reflexão sobre os rumos da civilização contemporânea.

“O dramaturgo desta nova geração nos provoca profundamente através de personagens inquietos, a princípio falsos acomodados, vítimas de nosso próprio tempo acelerado. À medida que vão se desnudando, vão também se revelando, sem mesmo se enxergarem e, assim, nos conduzem para a consciência do quase intragável e complexo mundo que construímos”, argumenta Daniel Alvim.

Com cenografia de André Cortez e visagismo de Leopoldo Pacheco — poucos elementos cênicos, movimentados pelos atores —, a montagem valoriza os diálogos concisos e as cenas fragmentadas, para que o espectador vá aos poucos montando o quebra cabeça daquela família disfuncional e tão próxima de todos nós. Destaque para o trabalho dos atores na composição dos personagens, que estão em cena desde a entrada do primeiro espectador. Vivendo um personagem que tem dificuldade de se expressar, mas que aciona a afetividade da família, Luciano Gatti emociona com sua sensível atuação. Leopoldo Pacheco também comove e é por meio de George que o autor faz os mais instigantes questionamentos, como:

‘Nós somos dignos de sermos salvos se não estivermos preparados para mudar?’

Uma frase para grande reflexão. Espetáculo tocante, imperdível!

Roteiro:
Se existe eu ainda não encontrei. Texto: Nick Payne. Tradução: Fred Kling. Direção: Daniel Alvim. Elenco: Helena Ranaldi, Leopoldo Pacheco, Luciano Gatti e Lyv Ziese. Trilha sonora: Marcello Amalfi. Iluminação: Wagner Freire. Cenografia: André Cortez. Visagismo: Leopoldo Pacheco. Figurinos: Anne Cerucci. Arte gráfica: Laerte Késsimos. Fotografia: Priscila Prade. Realização: Criação Consciente Produções, Arteranaldi Produções Artísticas e Complementar Produções Artísticas. Idealização: Daniel Alvim e Helena Ranaldi. 

Serviço:
Teatro Eva Herz (168 lugares), Conj. Nacional, Livraria Cultura, Av. Paulista, 2073, tel. 11 3170-4059. Horários: sábado às 21h e domingo às 19h. Ingressos: R$ 50. Duração: 1h30. Classificação: 16 anos. Temporada: até10 de dezembro.


Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

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