RESENHA: DENISE FRAGA PROTAGONIZA TEXTO CLÁSSICO DE IRONIA QUE PERMANECE ATUAL

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SÃO PAULO – A principal questão levantada pela peça A visita da velha senhora, escrita em 1955 por Friedrich Dürrenmatt, é se a ética consegue se contrapor e vencer o poder do dinheiro. Depois de temporadas de sucesso com duas obras de Bertolt Brecht — A Alma Boa de Setsuan/2010 com direção de Marco Antônio Braz e Galileu Galilei/2015 com direção de Cibele Forjaz — a atriz Denise Fraga está de volta com o dramaturgo suíço, discípulo de Brecht.

“Sou mais uma vez surpreendida pela potente atualidade de um clássico. E não foi por acaso que cheguei a Dürrenmatt. Ele foi discípulo, bebeu em Brecht. Lá está o mesmo fino humor, a mesma ironia e teatralidade. Dürrenmatt também se faz valer do entretenimento para arrebatar o público para a reflexão”, esclarece Denise Fraga.

Com direção de Luiz Villaça, Denise divide o palco com mais 11 atores, entre eles Tuca Andrada, Ary França, Fábio Herford, Romis Ferreira, Daniel Warren, Maristela Chelala e Eduardo Estrela.

Como fez nas outras duas montagens de Brecht, Denise e sua trupe recepcionam a plateia logo na entrada e, ao iniciar, todos entram cantando e pedem a ajuda dos espectadores no refrão. Depois desta introdução, a trama começa com os moradores da pequena e decadente cidade de Güllen ansiosos pela chegada da velha senhora Claire Zachanassian, papel de Denise, que nasceu e viveu até a adolescência entre eles. Depois da recepção, Claire é convidada a um jantar e é lá que a população é surpreendida. A ricaça promete doar um bilhão para a cidade, sendo metade da fortuna aos governantes e a outra metade para toda a população. Mas impõe uma condição: que Alfred Krank, vivido por Tuca Andrada, seja assassinado, já que na adolescência ele a abandonou grávida. A princípio a oferta é recusada de forma veemente, mas Claire é paciente e resolve se instalar na cidade à espera de nova resolução.

A partir daí os moradores de Güllen começam a agir de maneira peculiar: negaram a oferta, mas paradoxalmente iniciam uma corrida às compras, pagando tudo a crédito (lembre-se que nem existia na época cartão de crédito). Com sarcasmo e ironia, o dramaturgo suíço põe à prova a dignidade humana diante do poder financeiro:

“Dürrenmatt escancara nossa hipocrisia e nossa fragilidade diante do grande regente de nossas vidas, o dinheiro. Que espécie de gente somos nós? Até onde nos vendemos para poder comprar? Como manter viva a nossa esperança? Acredito no poder de transformação pela arte. O humor e a poesia nos ajudam a elaborar o pensamento para transformar, para não consentir. Mãos à obra, rumo à esperança”, desabafa a atriz.

Há méritos em se montar este clássico da dramaturgia mundial num momento tão crítico por que passa a sociedade contemporânea: refletir sobre nosso comportamento, por meio do humor e da ironia, é de suma importância. Além da dramaturgia contundente, do figurino e da direção de arte de Ronaldo Fraga, a sintonia em cena dos 12 atores chama a atenção, com destaque para Denise Fraga, Tuca Andrada, Ary França e Romis Ferreira. No entanto, a montagem, com mais de duas horas de duração, não é ágil e provoca cansaço. O julgamento final de Krank, ao invés de ser impactante, perde força dramática. Como assisti numa das apresentações de pré-estreia, talvez o diretor possa ajustar o espetáculo no decorrer da temporada, que se estende até final de novembro.

Roteiro:
A visita da velha senhora. Texto: Friedrich Dürrenmatt. Tradução: Christine Röhrig. Adaptação: Christine Röhrig, Denise Fraga, Maristela Chelala. Direção: Luiz Villaça. Direção de Produção: José Maria. Elenco: Denise Fraga, Tuca Andrade, Ary França, Fábio Herford, Daniel Warren, Romis Ferreira, Maristela Chelala, Renato Caldas, Eduardo Estrela, Beto Matos, Luiz Ramalho e Rafael Faustino. Direção de arte e figurino: Ronaldo Fraga. Direção musical: Dimi Kireeff. Trilha sonora original: Dimi Kireeff e Rafael Faustino. Desenho de luz: Nadja Naira. Visagismo: Simone Batata. Fotografia: Cacá Bernardes. Produção: NIA Teatro. Realização: SESI-SP.

Serviço:
Teatro Popular do Sesi (456 lugares), Av. Paulista, 1313, tel. 11 3146-7439. Horários: de quinta a domingo às 20h. Ingressos: gratuitos. Duração 120 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 26 de novembro.

Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

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