RESENHA: ENCENAÇÃO TEM OLHAR CRÍTICO À SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

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SÃO PAULO – Uma grande instalação. Esta é uma definição mais aproximada de Refluxo, o novo trabalho do diretor Eric Lenate, que também assina a cenografia do espetáculo. Contando com o impressionante trabalho de visagismo de Leopoldo Pacheco, Lenate transformou o mezanino do Centro Cultural FIESP num verdadeiro edifício de uma metrópole dos nossos dias — pode ser São Paulo ou qualquer outra grande cidade do mundo. Por meio do ascensorista Dário, vivido por Maurício de Barros, que é uma espécie de narrador, a plateia conhece os moradores daquele prédio de classe média decadente: ao entrar no elevador para entrar ou sair de suas residências eles expressam o que há de mais sórdido no ser humano, a violência moral, personalizada no desprezo ao próximo, na soberba e na arrogância.

Desde a chegada o espectador se vê envolvido no clima da trama: são apenas 50 pessoas, que são conduzidas em grupos pelo elevador até o mezanino. Quando todos já estão reunidos, percebe-se que aquele já é o corredor do edifício e lá fora chove muito, com trovoada e raios. Em seguida a porta do elevador (cenográfico) se abre e o público entra e pode se sentar de frente para ele (a sensação que se tem é que os espectadores estão dentro do elevador, numa proximidade com a ação que se desenrola ali). Dário, em seguida, chega da rua com um pássaro na mão, percorre todo o corredor dos apartamentos, entra no elevador e faz um imenso prólogo:

Cavei um buraco no peito e enterrei um pássaro vivo. Ele fez um ninho bem em cima do meu fígado para ver se o que está doente em mim resolve pedir licença e sair”.

Com refluxo e sempre com vontade de vomitar, Dário conduz os moradores no elevador e aos poucos o público conhece cada um deles. Há desde Diva a decadente cantora de churrascaria, vivida por Lavínia Pannunzio, que ao falar dá risadas esganiçadas, Dona Corina (Agnes Zuliani), a velha solitária que espera pelo filho que nunca a visita, o arrogante escritor desempregado Túlio (Laerte Késsimos), a dondoca decadente e petulante, Dona Cleide (Patrícia Vilela), além de Seu Abreu (Carlos Morelli), o síndico afetado e preconceituoso e o jovem casal Leon (Felipe Ramos) e Helena (Sheila Faermann), que vive às turras, expressando violência física e moral antes das transas.

Para a dramaturga Angela Ribeiro, sua peça é um recorte da sociedade contemporânea, representado no elevador do prédio, que conduz “seres que de tão desprezíveis, com exceção de Dário, chegam a ser cômicos”. Já para o diretor, os personagens são destituídos de superego, o conjunto de forças morais inibidoras:

“Este é um texto forte, violento, cheio de quinas e curvas, o que nos encaminhou para um trabalho de composição de personagens com feições cubistas, para darmos conta de todas as características que existem neles e que coexistem, às vezes, em uma única fala”, esclarece Eric Lenate.

Impossível não detectar personagens da vida real ali expressos, espelhados. A crítica social é inevitável. Todos os elementos da construção cênica: tudo — cenografia, visagismo, caracterização e maquiagem, iluminação, figurino, trilha sonora — concorre para a criação de um espetáculo de extrema beleza e impacto. Uma produção que retrata e critica a sociedade desta segunda década do século XXI com acuidade e firmeza.

O elenco impõe verdade e vigor a seus personagens, com Maurício de Barros, que conduz a trama, num dos grandes momentos de sua carreira.

Imperdível; procure se organizar, já que a plateia é reduzida.

Roteiro:
Refluxo. Texto: Angela Ribeiro. Direção e arquitetura cênica: Eric Lenate. Elenco: Agnes Zuliani, Carlos Morelli, Felipe Ramos, Laerte Késsimos, Lavínia Pannunzio, Maurício de Barros, Patrícia Vilela e Sheila Faermann. Figurinos: Rosângela Ribeiro. Iluminação: Aline Santini. Trilha Sonora: L. P. Daniel. Direção audiovisual: Laerte Késsimos. Visagismo: Leopoldo Pacheco. Fotografia: Leekyung Kim. Produção executiva:  Munir Pedrosa. Produção: Daltrozo Produções. Realização: SESI-SP. Criação: Sociedade Líquida

Serviço:
Mezanino do Centro Cultural Fiesp (50 lugares), Av. Paulista, 1313, tel. 11 3528-2000. Horários: de quarta a sábado às 20h30; domingo às 19h30. Ingressos: gratuitos. Bilheteria: de quarta a sábado, das 13h às 20h30; domingos, das 11h às 20h. Duração: 80 min. Classificação: 14 anos. Mais informações: www.centroculturalfiesp.com.br. Temporada: até 2 de julho.

Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

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