RESENHA: GABRIEL MIZIARA FAZ ÚLTIMAS APRESENTAÇÕES DO SOLO QUE DISCUTE O CONCEITO DE GÊNERO

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SÃO PAULO – Com humor e descontração, Gabriel Miziara dá vida àquela que se diz ‘a nova mulher’, a glamourosa Cindy Spencer. Com dramaturgia do próprio ator em parceria com o diretor Marcelo Lazzaratto, Cindy é um espetáculo que discute o conceito de gênero. Tendo como fonte de inspiração obras de Virginia Woolf, Gore Vidal, Caio Fernando Abreu, Oscar Wilde, Elisabeth Bishop, Gertrude Stein e Marguerite Yourcenar, o monólogo quebra as barreiras entre o masculino e o feminino por meio da trajetória de Cindy Spencer, que reúne o ideário e as características dos personagens destes autores, que sempre tiveram a diversidade como mote de seus trabalhos.

O espetáculo começa com a entrada de Gabriel, como se ele estivesse chegando ao seu escritório ou a um estúdio de arte. Ele liga o som, o computador — plugado a um telão — e começa sua pesquisa. As imagens projetadas são das grandes divas do cinema hollywoodiano. Ele também se utiliza de vários livros que estão embaixo da mesa de trabalho e faz anotações. Além desta pesquisa, ele cria um figurino para um manequim que está ao lado dos espectadores. É nesta hora que o ator interrompe tudo e conversa com a plateia, dando início literalmente ao espetáculo. Começa contando como surgiu Cindy, aquele ser que pode ser homem/mulher, não importa. O que realmente importa é a sua essência.

“Durante o período de pesquisa e dos ensaios, eu e  Marcelo Lazzaratto entendemos que poderíamos construir uma única figura baseada em várias personagens e, assim, discutir o masculino e o feminino presentes em um único ser. Assim Cindy Spencer nasce com o desejo de quebrar regras, de subverter a ordem e instaurar seu império, o do amor. Este espetáculo é um ato em favor do amor, do amor por ser o que se é”, argumenta Gabriel Miziara.

Mesmo tocando em temas sensíveis e delicados, como o da identidade de gênero, sexualidade e diversidade sexual, o tom do espetáculo é leve e bem-humorado. Cindy Spencer não é dramática, é uma pessoa de bem com a vida, tanto que na cena que fantasia o corte do falo, ela corta uma cenoura em vários pedaços e depois oferece aos espectadores.

O grande destaque da peça é sem dúvida para o domínio de cena de Gabriel Miziara, que além de dar vida à Cindy, compõe os demais personagens da vida dela (com sutis modulações de voz) e interage com os demais elementos cênicos (telão, computador, esteira rotativa e manequim).

Pena que esta temporada paulistana foi pequena (um mês na Biblioteca Mário de Andrade e 10 sessões no Viga, que acaba na próxima terça, dia 31/10). Miziara avisa, no entanto, que pretende levar para o Rio de Janeiro no primeiro semestre de 2018 tanto Cindy como As ondas ou uma autópsia, apresentada aqui no ano passado.

Roteiro: Cindy. Dramaturgia: Gabriel Miziara e Marcelo Lazzaratto (livre adaptação de textos de Gertrude Stein, Gore Vidal, Marguerite Yourcenar, Pier Paolo Pasolini e Virginia Woolf). Direção e cenografia: Marcelo Lazzaratto. Elenco: Gabriel Miziara. Figurino: Isabela Teles e Edson Braga. Edição de vídeo: Caio de Pietro. Fotografia: João Caldas. Produção executiva: Larissa Barbosa. Produção: Canto Produções e MeiMundo.

Serviço: Viga Espaço Cênico, Sala Piscina (35 lugares), Rua Capote Valente, 1323, tel. 11 3801-1843. Horários: segunda e terça às 21h. Ingressos: R$40 e R$20. Duração: 60 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 31 de outubro.

Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

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