RESENHA: INSTIGANTE MONTAGEM DE BIA LESSA DA OBRA DE GUIMARÃES ROSA

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SÃO PAULO – Considerado um marco da literatura brasileira e mundial, Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, acaba de ganhar uma dupla transposição. A diretora Bia Lessa transformou o espaço de convivência do SESC Consolação numa grande instalação de artes plásticas, que à noite passa a ser o palco para a representação teatral da grande obra literária brasileira. Uma estrutura tubular em formato de uma gaiola abriga tanto a plateia como os 10 atores, que incorporam o universo de Rosa para contar a saga do jagunço Riobaldo, interpretado por Caio Blat, que atravessa o sertão para combater seu maior inimigo, Hermógenes (Leon Góes), e desvendar seus sentimentos amorosos pelo companheiro de aventura Diadorim, interpretado pela atriz Luiza Lemmertz.

Além da estrutura do cenário que faz com que o espectador torne-se cúmplice da história, a peça só começa depois que todos colocam os fones de ouvido: sons dos animais, da mata, da natureza e as vozes dos atores transportam a todos para o sertão criado por Rosa.

A diretora, que assina ainda a concepção, a adaptação e a luz do espetáculo, há muito é admiradora do escritor mineiro, tanto que na inauguração do Museu da Língua Portuguesa, em 2006, criou a mostra sobre os 50 anos de lançamento do romance Grande Sertão: Veredas. Desta vez o desafio foi o de criar ‘o sertão que está dentro da gente’.

“Nosso caminho foi criar um trabalho onde homens, animais e vegetais estabelecessem uma relação de diálogo, sem supremacia entre eles. Não estamos exatamente no sertão, mas num espaço ecológico e metafísico onde tudo cabe. Um espaço, uma imagem que nos  possibilita a experiência proposta pelo romance. Escolhemos não utilizar grandes efeitos ou recursos, apenas os próprios atores”, esclarece Bia Lessa.

É assim que os 10 atores com figurino negro vão dando vida a todos os elementos do sertão, as aves, cavalos, vacas, vegetação e os valentes jagunços. Riobaldo inicia a narrativa de sua trajetória de vida divagando sobre questões existenciais, como vida e morte, o bem e o mal, Deus e o Diabo e a sua dúvida sobre a possibilidade de vender a alma ao satanás. O ingresso dele nos diferentes bandos de jagunços é relatado em seguida, para na sequência explicar como passou a perseguir seu maior inimigo, Hermógenes. Seus amores e o sentimento que não consegue definir por seu companheiro de batalha, Diadorim, dão norte à épica narrativa de Riobaldo, que só descobre que seu amigo, morto em batalha, era na realidade Maria Diadorina, filha de Joca Ramiro, cruelmente assassinado por Hermógenes.

O espetáculo tem quase três horas de duração e os atores ficam em cena o tempo todo. Além do grande impacto que causa durante a apresentação, a montagem tem outra dimensão: a estrutura e a concepção espacial (criada por Camila Toledo e colaboração de Paulo Mendes da Rocha) e os 250 bonecos de feltro em tamanho natural por Fernando Mello Da Costa permanecem expostos durante toda a temporada, registrando a batalha final da morte de Diadorim.

Realmente muito difícil destacar a atuação de alguém do elenco, que desde maio ensaia para a criação do espetáculo. Mas a interpretação visceral de Caio Blat para o protagonista, assim como o vigor de Luiza Lemmertz na pele de Diadorim e Luisa Arraes, que faz vários papéis, inclusive Riobaldo jovem, precisam ser ressaltados. A trilha sonora de Egberto Gismonti e a sonorização de Fernando Henna e Daniel Turini são elementos cruciais para a concepção cênica de Bia Lessa para o universo de Guimarães Rosa. Sem dúvida um dos grandes espetáculos do ano.

Roteiro:
Grande Sertão: Veredas. Concepção, direção geral, adaptação e desenho de luz: Bia Lessa. Elenco: Balbino de Paula, Caio Blat, Daniel Passi, Elias de Castro, Leon Góes, Leonardo Miggiorin, Lucas Oranmian, Luisa Arraes, Luiza Lemmertz, Clara Lessa. Concepção espacial: Camila Toledo, com colaboração de Paulo Mendes da Rocha. Trilha sonora: Egberto Gismonti, colaboração de Dany Roland. Desenho de som: Fernando Henna e Daniel Turini. Adereços: Fernando Mello Da Costa. Figurino: Sylvie Leblanc. Fotografia: Roberto Pontes. Direção executiva: Maria Duarte. Idealização: 2+3 Produções Artísticas Ltda. Realização: Sesc, Ministério da Cultura.

Serviço:
SESC Consolação, área de convivência, Rua Dr. Vila Novas, 245. Horários: de quinta a sábado às 20h30 e domingo às 18h30. Ingressos: de R$ 40 a R$ 12. Vendas: portal do SESC e nas bilheterias das unidades. Duração: 160 minutos. Classificação: 18 anos. Temporada: até 22 de outubro.

Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

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