RESENHA: MONÓLOGO RETRATA CONFLITOS EXISTENCIAIS DE JOVEM PADRE

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SÃO PAULO – Encenado desde 2015 — inclusive no festival de monólogos em Cuba, onde recebeu dois prêmios —, o espetáculo Atrium Carceri  está de volta à cidade em curta temporada. Com dramaturgia de João Guerreyro e direção de Eduardo Osório, o ator Mário Goes encarna um jovem padre que vive num mundo de conflitos interiores. Sozinho e com a cabeça repleta de pensamentos antagônicos, ele questiona dogmas católicos ao se lembrar de experiências vividas na infância e na adolescência que lhe proporcionaram prazer carnal. Sem saber como conciliar os ensinamentos religiosos com seus sentimentos mais profundos, o padre vive um misto de emoções contraditórias: raiva, resignação, vingança, culpa, ódio e amor.

Ao entrar na sala de espetáculo, o público já encontra o ator em cena, deitado de barriga pra baixo diante de um pequeno altar, em extrema reverência. E o padre começa seu desabafo rezando um ‘Pai Nosso’. Mas a oração vem seguida de um turbilhão de emoções, revelando o estado de conflito interior em que o religioso se encontra. O espectador neste início desconhece a causa de tanto tormento, mas aos poucos o padre vai revelando o porquê de seu desespero. Ele se lembra da infância, do desamparo (a mãe sempre teve vários amantes e ele nunca soube quem foi seu pai) e depois de ter sido acolhido pelo velho avô, que logo morre. Mas o trauma daquele jovem padre é de fundo sexual e emocional: obrigado desde pequeno a estudar e se dedicar à religião, sempre viveu à parte de tudo e de todos, sem ter noção de seus desejos. E o que poderia ser uma violência (é molestado por um dos amantes da mãe), torna-se fonte de prazer e ao mesmo tempo de angústia. O padre tem noção de que era abusado sexualmente, mas também se lembra de que aquele contato com o amante da mãe lhe abriu as portas para o prazer carnal e o amor. Daí viver em profundo conflito existencial.  

Mesmo se tratando de tema amplamente discutido na dramaturgia universal (desejo carnal de religiosos), a trama é bem articulada e o drama do jovem padre, verossímil. Destaque para iluminação de Georgia Ramos e o visagismo de Marlon Guimarães, que valorizam a narrativa e a interpretação visceral de Mário Goes.

Roteiro:
aAtrium Carceri. Texto: João Guerreyro. Direção e trilha sonora: Eduardo Osório. Elenco: Mário Goes. Preparação corporal: Edson Simões. Preparação vocal: Moira L’Abbate. Visagismo: Marlon Guimarães. Cenografia: Gabriel Gombossy. Iluminação: Georgia Ramos.  Fotografia: Jal Vieira. Produção executiva: Fábio Mráz. Produção: Cia Paradóxos.
Serviço:
Espaço Cia da Revista (83 lugares), Alameda Nothmann, 1135, tel. 11 3791-5200. Horários: quinta, às 21h. Ingressos: R$ 40. Duração: 50 min. Classificação: 16 anos. Temporada: até 31 de agosto.

Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

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