RESENHA: MONTAGEM DE ROBERTO ALVIM REVISITA OBRA DE TCHEKHOV

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SÃO PAULO – Com o mesmo mote — 100 anos da Revolução comunista de 1917 — do espetáculo A Plenos Pulmões sobre a vida e a obra de Vladimir Maiakóvski, Kiev, montagem de Roberto Alvim da peça do dramaturgo uruguaio Sergio Blanco, se reporta ao período pós-revolução russa e às consequências da era totalitária implantada por Stalin. Inspirada na obra de Anton Tchekhov, O Jardim das Cerejeiras, a peça mostra o que teria acontecido os descendentes dos personagens da clássica peça, 100 anos depois: voltando à Rússia, eles chegam à antiga mansão da família que está prestes a ser demolida e transformada em estacionamento de um shopping center. Para o diretor, que assina também a tradução, a adaptação, além do cenário e iluminação do espetáculo, a peça faz um balanço da história da humanidade.

“A peça se propõe a visitar os milhões de assassinatos perpetrados pelo czarismo, comunismo e capitalismo. O terrível é que, aos insuportáveis atos de tortura e assassinatos, vemos suceder algo igualmente bárbaro: a negação e o apagamento do passado por nossa deliberada amnésia contemporânea”, afirma Roberto Alvim.

O início da peça é com a chegada da família à mansão: a mãe, interpretada por Juliana Galdino, e os filhos, vividos por Filipe Ribeiro e Taynã Marquezone, são recepcionados pelo tio que se manteve lá, papel de Otávio Martins, e por seu empregado, vivido por Marat Descartes. Ambos foram colaboradores do sistema totalitário e autores de tortura e morte — a antiga piscina da casa se tornou depositório de cadáveres de presos políticos. Este segredo não deve ser revelado, do contrário a carnificina volta a ser executada.

“O objetivo de Kiev será o de revelar aquilo que permanece oculto: tornar visíveis aquelas imagens relegadas à obscuridade. Esse é também o objetivo de minha obra como um todo. Minha arte poética consiste na necessidade de reivindicar a revelação do oculto, do inominável, do proibido, por meio do teatro”, define Blanco.

Num momento em que atitudes conservadoras e governantes totalitários se proliferam pelo mundo — vide Síria, Coreia do Norte, Turquia, Rússia, Irã, Iraque, Estados Unidos, Cuba, Venezuela —, nada melhor do que a arte como polo de denúncia de abusos contra os direitos humanos ou então as manifestações artísticas servirem como holofotes para os exageros e ações execráveis (ao ver nos palcos, na TV, no cinema ou nas artes plásticas, o público tem a chance de tomar consciência dos absurdos cometidos).

O grande destaque de Kiev é sem dúvida para a marca registrada do trabalho de Roberto Alvim: o impacto visual causado pela construção cênica, a iluminação como elemento fundamental da narrativa e o rigor com a direção dos atores. A composição de personagem de Marat Descartes, Otávio Martins e Filipe Ribeiro merece ser ressaltada.

Roteiro:
Kiev
. Texto: Sergio Blanco. Tradução, adaptação e direção: Roberto Alvim. Elenco: Juliana Galdino, Marat Descartes, Otávio Martins, Filipe Ribeiro, Taynã Marquezone e Caio Daguilar. Cenário e iluminação: Roberto Alvim. Trilha sonora original: LP Daniel. Figurinos: Cássio Brasil. Fotografia: Edson Kumasaka. Produção: Dani Angelotti. Realização: Club Noir e Cubo Produções
Serviço:
Sesc Ipiranga (200 lugares), Rua Bom Pastor, 822. Horários: sexta e sábado às 21h e domingo e feriado às 18h. Ingressos: R$ 30, R$ 15 e R$ 9. Vendas: online ou nas bilheterias do Sesc. Duração: 60 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 10/09.

Maurício Mellone publicou o texto no 
www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

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